domingo, 3 de outubro de 2010

Eles

Estou solteira. Depois de mais de um casamento, namoros longos, curtos e casos. Já passei dos quarenta. Não me ufano de estar só, nem corto os pulsos por isso. Portanto, aceitei o desafio de apresentar meus humildes argumentos contra às mulheres que se vitimizam e àquelas que adoram ridicularizar os homens. Felizmente, nasci depois da guerra dos sexos, posso me dar ao luxo de usar sutiã como objeto de fetiche -- ou, simplesmente, de sustentação --, e dizer que prezo a companhia masculina dentro e fora das quatro linhas de um relacionamento afetivo.
Não pensem que passei batido pelas dores da solidão e da espera. Um homem muito mais talentoso com as palavras do que eu já dizia que “todo mundo é parecido quando sente dor.” Apenas me cansei de ver as mulheres -- eu inclusive -- expor as próprias misérias em blogs, instalações, livros e, até, muros. Gente, pare e pense: somos pessoas saudáveis e sofremos tanto por causa dos homens? No mínimo, isso acontece porque eles têm muita importância. E de onde vem essa importância? Talvez não esteja justamente no fato de já termos compartilhado bons momentos com eles?
Ainda quando era criança, meu pai mandava cartões-postais anônimos só porque eu reclamava de não receber cartas. O homem que me mostrou a delicadeza masculina, cometeu a grossura de ir embora cedo. E até o último dia em que estivemos juntos, me carregava do sofá para cama. Eu fingia que dormia e ele reclamava que estava ficando velho. Nessa curta convivência, colecionei bilhetinhos, bonecas típicas, curativos e tantos outros carinhos.
O exemplo dele deu frutos e meu irmão nunca descuidou da minha mão na hora de atravessar a rua. Anos mais tarde, o mesmo irmão fez a mudança da minha primeira separação sem dizer uma palavra. Um cunhado, que virou irmão, fez a mudança da minha última separação. Em frente à casa que eu deixava, enquanto acomodava minhas malas no carro dele, admitiu que aprendera muito do que era construção e carinho no contato com a minha família.
Eu aprendi tanto com os homens...andar de bicicleta, jogar buraco, chutar bola, comer comida japonesa, a entrar no mar sem medo, a ser tricolor de coração. Um colega de escola me ensinou o suficiente de química para que eu pudesse passar bem no vestibular. Outro até tentou me explicar física, números complexos, álgebra linear.
Graças ao namorado tirei a carteira de motorista, a segunda via da identidade, instalei uma bela estação de trabalho, aprendi a baixar música. Com o namorado aprendi que o amor enche de beleza os amantes e os olhos de quem ama. Com toda a doçura, ele me disse que, no começo, me achou um mulherão, interessante, charmosa, inteligente. Mas que, a cada dia, me achava mais bonita. E quando ouvi que meu pescoço era bonito, que ficava bem de cabelo curto. Bastou para acabar com quase duas décadas do trauma de cegonha.
Teve o dia em que perguntei ao namorado, assim meio de bobeira, esperando confeti, por que ele sempre me recebia tão bem na casa dele. Em tom solene, me respondeu que fazia todos aqueles salamaleques porque entendia o tanto que foi preciso quebrar de tabus para que uma mulher sozinha saísse de sua casa e batesse na porta de um homem solteiro.
Morri de rir quando, do nada, ou melhor, depois do nada, o namorado olhou pra mim, começou a me beijar até respirar aliviado: “nossa, ainda bem que você gosta de sexo.” Aliás, a quem mais devo atribuir essa preferência? A meu dom de escolher parceiros? Ou a sorte de ter esbarrado com pessoas bacanas?
Houve a fase em que recebia, de tempos em tempos, buquês de angélicas. Para quem não sabe, não são flores fáceis de achar. Não estão à venda na floricultura da esquina. Até hoje, não descobri quem era o fornecedor do namorado. E as obras completas de Machado de Assis? O relógio descolado? A viagem surpresa? O smartphone? A impressora? Os sapatos de salto alto que jamais pensei em usar? Tantos presentes originais, utilitários ou inúteis.
E o gesto de delicadeza de encher o copo, servir o prato, dar passagem ou lugar no corredor porque eu detesto janela. Delicadezas que recebemos de desconhecidos. E a alegria de atender aquele telefonema tão esperado? A gargalhada depois de ser surpreendida pelo pretendente dizendo que estava com saudade da minha conversa inteligente?
Sempre que precisei, eles estavam por perto. Quando fui atropelada na porta de escola, adivinhe quem me tirou do chão? O menino mais lindo da escola. Meus Deus, por onde será que ele anda? Como é bom ter mão de um homem na hora e no local apropriados. Até na internet fiz amigos de fé, que me acolhem sem jamais termos trocado um olhar.
Desde cedo ouvimos que somos mais espertas. Mais ligadas. Será que isso é uma questão gênero? Recebi elogios que levei tempo para entender. Só depois da minha primeira viagem à Espanha pude compreender o que um colega de trabalho pensava de mim quando repetia que Barcelona tinha tudo a ver comigo. Esse mesmo colega me trouxe de Nova York um livro com o qual eu sonhava e nem desconfiava que ele soubesse. Detalhe, eu morria de amores por ele e, como achava que não tinha a menor chance, costumava alugá-lo com minhas aventuras amorosas. Até que, de repente, ele parou de me dar atenção e carinho.
E que tal ser pedida em casamento por alguém que, de fato, desejava viver toda a vida ao meu lado? Que delícia poder dizer sim e entrar na igreja lotada sem conseguir parar de chorar durante toda a cerimônia. E a dor de descobrir, anos mais tarde, que Paulo Mendes Campos tinha razão, que o amor acaba e pronto.
E o conforto de ver a fila andando, a chegada de gente nova, a descoberta de sensações, potencialidades e afetos. O namorado que me deu às boas-vindas à vida dele, me franqueou os livros de cabeceira, que acabaram virando meus títulos favoritos. Só para curar a minha ressaca de mais de 18 horas de trabalho, o namorado abriu o champanhe mais caro da adega. E o cuidado de quem cronometrou a entrega da comida com a minha chegada para que eu não ficasse esperando.
Poucas coisas são tão atraentes quanto um homem empolgado. Pelo trabalho. Por uma mulher. Um tolo de bom coração gritou para mim: “vou mudar sua vida”. Por dentro, não sabia se morria de vergonha ou torcia para que fosse verdade. Agradeço a confiança e aviso que até já me esqueci dos segredos que ouvi daqueles que me escolheram como confidentes.
Adoro que o meu sobrinho, de 18 anos, conte comigo para os trabalhos da faculdade. Fico mais jovens quando troco cds com o outro de 16 anos e babo pelo Dudu, que tem só um ano e é meu afilhado. O Vicente, sobrinho escolhido, já me derrete quando me chama de Gegé. Não resisto quando me chamam de Gegé.
Eles fazem bem à minha saúde. Meu ginecologista é homem, meu terapeuta e meus autores e diretores de cinema favoritos também. Comecei a correr por um homem e, hoje, corro por muitos deles. Pode ser um filme, uma barra de chocolate, uma receita especial ou a última maravilha tecnológica. Homens gostam de te apresentar o mundo. E estou sempre disposta a conhecer.

domingo, 25 de julho de 2010

Ouvida na piscina e contada para mim

Ela já passava dos quarenta, tinha se casado duas vezes e, como São Paulo, mantinha a fé. Todos os dias pedia a Deus que lhe arrumasse um marido bom, que a amasse muito e ainda fosse rico. O ritual deu certo, dizia exultante para as colegas da hidroginástica. "Nós estamos juntos há dez anos. Claro que temos problemas, como todos os casais, mas nunca fui tão feliz num relacionamento."
Ao lado dela, uma senhora de mais de 70 prestava atenção por delicadeza e também por interesse. Ela andava muito preocupada com a filha caçula, que, na faixa dos quarenta, levava uma vida amorosa bastante atribulada. Por isso, aproveitou a oportunidade para perguntar:
"como vocês se conheceram?"
Parece que a outra estava mesmo esperando por isso. Redobrou o fôlego e respondeu que era corretora de imóveis e o marido a procurou para comprar uma casa. "Ele havia se separado. Estava arrasado e queria trocar o Rio pela Serra. Eu o recebi como mais um cliente, não pensei em nada. Mas, tive dificuldade para achar uma casa como que ele queria e acabamos ficando amigos. Depois, começamos a namorar. Hoje, eu vivo no mesmo imóvel que vendi."

sábado, 24 de julho de 2010

Essa fizeram questão de me contar...

"Vamos chamá-lo de imperador. Ele tinha nome de imperador e eu nunca dei tanto em cima de um homem. Não era exatamente o meu tipo e não parava de me olhar. Assim que teve oportunidade, pediu o telefone. Dei o número e ele ligou na hora para conferir. Depois, fui eu quem ligou zilhões de vezes. Pus os pingos nos is: eu queria transar com você. Não dava conta de dormir com tanto tesão.

Tratamos do assunto. O entusiasmo de ambos era esperado. O carinho, o cheiro da pele me surpreenderam. Já na conversa, olho no olho, o estranho foi liquidando o velho amor que arrastava correntes dentro de mim. Bastou o primeiro beijo para expulsar o passado, me deixar sem voz, sem histórias. A gente não tinha nada para conversar.
Eu ficaria a noite inteira no frio, beijando aquele homem cheiroso, grande, gostoso, forte, poderoso, com nome de imperador . Você não tem ideia do bem que me fez. Fiquei com vontade de retribuir. Quem sabe um dia, até quem sabe. Não precisava e não terminou em poesia."

Ouvi num café

Puxei a cadeira. Não queria olhar a rua e me sentei de frente para o balcão. Antes de fazer o pedido, ouvi: “meus pais nunca mais vieram ao Rio por causa das nossas brigas”. Ao meu lado, duas moças bonitas e descoladas. Quem falava era a mais baixinha. Por que ela brigava tanto com os pais depois da adolescência e ainda por cima vivendo em cidades -- talvez países -- diferentes? A atendente chegou a minha mesa, eu disse que queria capuccino pequeno e meia-porção de pão-de-queijo. Não imaginei que fosse demorar tanto.
Não tinha a menor intenção de ouvir aquela história e queria sair correndo dali para minha ginástica. Era dia de plantão e, como sempre, sentia aquela necessidade de fazer algo por mim antes de começar a trabalhar. Já que só me restava esperar, preferia me distrair com uma história mais leve, divertida, curiosa. Fiquei pensando em como as mulheres se expõem mais do que homens. Não costumo levar muito a sério essas distinções de gênero. Sou de uma geração pós-feminismo. Daquelas que surtam ao tentar dividir responsabilidades com os parceiros, enquanto mantêm a ternura e a barriguinha sarada.Bem, tudo isso para dizer que detesto a ideia de associar o caráter ao gênero. Homens e mulheres são igualmente bacanas ou sacanas.
De resto, reconheço, existem diferenças. Raramente, a gente encontra dois amigos dividindo intimidades num café numa das ruas movimentadas da cidade. Resumo, ela não parava de brigar era com o marido. Mas não tinha como bancar um apartamento sozinha. A amiga veio de Campinas para visitá-la e elas estavam tomando café fora de casa para esclarecer a situação: “eu não queria comentar com você tudo isso com ele por perto”.
A amiga demonstrou um certo constrangimento e só abriu a boca quando ela contou sobre o dia em que o namorado a jogou no chão. “Isso é muito grave, Marisa.” Ela admitiu que sim com a cabeça e continuou: “ele tinha cheirado para caramba naquele dia. Foi para Lapa com um amigo beber e depois saiu direto para boca. Chegou em casa agitado. E acho que me empurrou sem querer.”
Engoli o capuccino, pedi o pão-de-queijo para viagem e parti. Não queria ouvir mais nada. Repito não aceito as máximas de que os homens são todos canalhas e nós vítimas do nosso romantismo. O meu dia seguiu como planejei -- até porque naquele sábado, não era dona do meu tempo. Mesmo assim, volta e meia, me perguntava: quantos homens tolerariam tanto num relacionamento? Quantos se manteriam numa relação furada porque não podem bancar um aluguel? Será que isso é uma questão de gênero?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ouvi de Stella Florence (http://itodas.uol.com.br/amor-e-sexo/quando-doi-tudo/)

Aquela consulta havia sido marcada por sua irmã e foi apenas por conta de sua insistência que ela estava ali. Os apelos e queixumes da família já eram tão constantes que uma visita ao médico traria menos transtornos.
Como ela poderia explicar a eles? Algumas coisas são tão óbvias que falar sobre elas se torna penoso ou ridículo. Ainda assim, ao que parece, ela precisaria não apenas explicar o óbvio, como também embasá-lo com um diagnóstico médico, diagnóstico coroado por um remedinho tarja preta de preferência.
As revistas do consultório traziam na capa casais que não estavam mais juntos, grávidas que há muito haviam parido, famosos que caíram no esquecimento e cenas de novela das oito cujo enredo hoje se repetia com outros atores e outro título. Suas opções eram folhear aquelas revistas, observar os outros pacientes ou fechar os olhos, simulando um sono que nem de leve sentia. Porém, não foi preciso escolher: em alguns minutos ela foi chamada na sala 4.
Uma vez deitada na maca, o médico perguntou, forçando os dedos contra o peito dela:
— Onde dói?
Ela então franziu a testa, arreganhou os dentes e… desceu. Desceu vertiginosamente para dentro de si mesma.
“Onde dói?”, pensou. “Dói meu peito que permanece curvado em pranto. Doem meus ombros que não suportam o peso da saudade. Doem meus ouvidos secos de palavras carinhosas. Doem meus rins que não filtram a saliva amarga da solidão. Doem meus pés que não têm por quem caminhar. Dói meu sexo que não se abriu para o filho. Doem meus olhos que não encontram senão a casa vazia. Dói meu couro cabeludo que não recebe os unguentos do cafuné. Dói minha garganta congestionada de gritos não dados. Doem meus braços que se atrofiaram por não mais abraçarem meu homem. Dói minha língua na clausura eterna dos dentes. Dói meu estômago que não digere a ausência dele”.
— Dói tudo, doutor. Dói simplesmente tudo, porque meu corpo não é só essa carne óbvia em cuja massa dedos afundam procurando um nódulo, uma urticária, uma veia estourada. Dói tudo porque em tudo a alma se coloca e a alma, doutor, a alma sente sem analgésicos.
Mas é claro que eu sei que vai passar, não sou nenhuma ignorante dos mecanismos da vida para, mesmo sob essa dor doída de alma doente, me jogar de uma ponte ou tomar quarenta comprimidos de um tranquilizante qualquer. Sei que vai passar. Minha razão sabe que vai passar. Sei também que o único tratamento recomendado ao meu caso é o tempo. Sei de tudo isso, tudo isso me é claro, mas por enquanto, por favor, faça esta caridade, doutor: não pergunte onde dói.

*Stella Florence nasceu em 67, tem uma filha, 30 tatuagens e sete livros, entre eles “Hoje Acordei Gorda” e “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”. A mescla de humor e drama, além do verbo ácido, se tornou a marca registrada de sua literatura. Stella é tão alucinada por Gabriel García Márquez que sua cama (sim, sua cama!) tem o mesmo apelido do escritor colombiano: Gabo. Cada louco com sua mania… www.stellaflorence.com

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Banheiro feminino

"Eu deixo a água quente cair sobre o meu corpo para relaxar a musculatura e também para me sentir mais viva", ela me disse olhando para mim enquanto se enxugava no banheiro da academia. Tentei disfarçar o desconforto de ser convocada para participar da intimidade dela. Queria demonstrar naturalidade. Ela precisava falar. E eu gosto de ouvir histórias. Pelos motivos mais diversos e também por compaixão.
Claro que aquela mulher simpática e em forma queria me contar um caso de amor mal-sucedido. Mesmo com pressa. Estou sempre com pressa e não gosto disso. Bem, apesar de atrasada -- vamos falar o português claro, eu parei de secar o cabelo e me virei para ela. Eu queria prestar atenção e deixar isso evidente. Ela gostou e prosseguiu: "estou tentando me recuperar do fim de um namoro. Não durou muito tempo. Menos de seis meses, mas foi muito gostoso, a gente se dava bem, se divertia e, pelo primeira vez, sentia que estava namorando de verdade. Até, então, tive casamentos ou casos, você me entende? " queria saber ela, que aparentava uma idade entre 35 e 40 anos.
Respondi com a cabeça que entendia. Eu não estava ali para falar."Mas, por que acabou, então, eu pensava já elencando os clichês do universo feminino de banca de revista e psicologia barata: ele tinha medo de se entregar, ela o assustava. " Felizmente, não repeti nenhuma dessas bobagens. Ela continuo: "ele me deu um pé na bunda. Depois de um dia dos namorados lindo, de uma viagem para praia de muito sexo, carinho e comida boa. Estranhei porque ele foi me buscar no trabalho. Ele sempre dizia que o meu escritório ficava no lugar mais contra-mão do mundo. Mal a gente entrou no carro, andou 5 minutos, ele disse que tinha uma coisa chata para me dizer. Eu tremi. Incrível, nesses momentos, sinto uma descarga de energia semelhante a um orgasmo. Preciso conversar com meu terapeuta sobre isso. "
Ela olhava para mim, enquanto terminava de se vestir, e mesmo assim parecia indiferente a qualquer coisa que eu dissesse ou mesmo um interjeição de solidariedade. Parecia que eu não estava ali. "Depois de anunciar a bomba", continuo ela, "ele desfiou os maiores elogios que já ouvi na minha vida: que eu era perfeita, linda, inteligente, carinhosa, divertida, que os amigos dele e o filhos me adoravam. Que a terapeuta dava força para a nossa história. Só que ele não me amava. Simples assim."
Nesse instante, eu havia frisado, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, procurava qualquer coisa na minha necessaire. O que se pode dizer numa hora dessas? Eu me lembrei da Stella Florence. Em uma de suas crônicas, ela recomenda que a gente não preste atenção em nada que venha antes de um "mas" em qualquer discurso, de um homem, da mãe, da melhor amiga ou do chefe.
Eu já estava morrendo de pena daquela moça. Mas a dor e a história não paravam ali. Dias depois, ela soube que ele havia voltado para a ex. Uma ex a quem ele chamava, no mínimo, de estelionatária, que o havia desancado na internet. E que a terapeuta - de novo (!!) - havia rotulado como uma droga, com o potencial destruir do álcool, etc. Ou, seja, pouco mais de uma semana, o ex-namorado já estava feliz e satisfeito ao lado de uma outra de quem ele só falara mal.
Ela não devia, admitiu. Mas foi cobrar satisfação. Ele perguntou quem era ela para julgar as contradições da vida dele. Ela não queria julgar. Só queria confirmar se era isso mesmo. "A revelação", ela tentava me explicar, "tirou um peso dos meus ombros". O coração continuou em frangalhos. "Afinal, tudo que viveram foi bom apenas para ela? Ela foi usada para ele dar um tempo e olhar o grande amor da vida dele em perspectiva?"
Vamos combinar, todo mundo usa todo mundo, pensei comigo. É fato e mesmo assim não consola ninguém. Ela está com a auto-estima no pé. Ela acaba de se arrumar e eu a acho tão bonita. Só que prefiro não dizer. Em certas situações, elogios fazem mal. O que dizer a uma mulher que tentou, investiu, queimou navios e não conquistou o amor de um homem? Cartas para esse blog. Eu a encontro, de vez em quando, no espelho da academia.

domingo, 4 de julho de 2010

Imagem

Perguntei a um fotógrafo fera em retratos quem era mais difícil de fotografar. Não sei se
a pergunta era recorrente, a resposta fácil demais, ou as duas coisas. Ele não teve dúvida: "mulher que foi muito bonita". E explicou dizendo que essas têm consciência do que perderam. Triste? Quis saber, então, os mais dóceis diante da câmera. Ele também disparou: "homem velho e feio. Ele não espera nada. O que vier é lucro!"

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O assunto

Um dos princípios desse blog é evitar comentários sobre homem. Mulher perde tanto tempo falando em homem. Não sei se pela vantagem numérica, pela criação, pelos hormônios, nem os mais devotados gastam tanta saliva e neurônio tentando interpretar os nossos sinais.
A determinação de pular o assunto é um exercício de estilo, de mudança de postura, etc. Mas, claro que, no mundo real, a situação continua parecida. E depois que eu soltei uma tirada sobre um possível ficante, a minha melhor amiga insistiu: "ah, põe isso no blog." E, respondi: "não, já disse que não. Milhões de vezes: não!"
Para tentar me convencer, ela, que também tem mania de ouvir conversa, saiu com essa: "não tem jeito. esse é o único assunto que nos interessa. Quando estou na pracinha com o meu filho, ouço as babás falarem sobre casamento, namoro, traição, enfim...só querem saber de homem."
Socorro!!!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Internet, cartas e carinho

Não há dano que o mal uso da internet possa fazer que não seja batido pelos benefícios da rede. E, olhe, não estou me referindo às informações nas pontas dos dedos. Quero falar mesmo de comunicação, de emoção. Como é bom saber de amigos e parentes distantes geograficamente ou, apenas, pela rotina. O aviso de um alô me faz lembrar de quando era criança e corria para receber o carteiro no portão.
Mas, desde quando crianças recebem carta? A minha correspondência se limitava aos cartões postais dos parentes em viagem e os cartões de natal. Lembram disso? Essa ausência de novidades -- como eu gostava de dizer -- me dava uma frustração...
Uma pontinha de tristeza que não passou despercebida pelo meu pai. Naquele tempo,os pais só trabalhavam. Lembram disso? Mesmo assim, o meu teve o cuidado de reparar essa lacuna na minha vida postal e passou e me mandar cartões anônimos. Eram bichinhos, flores, bonequinhas. Nas costas o texto datilografado. Lembram disso?
Lindo, ? E, hoje, tenho certeza que revivo essa alegria nos scraps, comentários, etc, que, felizmente, aparecem na tela. Muito obrigada a todos pelo carinho! Lembrem disso!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Na pista

Um amigo gay, lindo, com menos de trinta, acaba de sair de um namoro de nove meses. Entre margaritas, água mineral sem gás e wraps, a gente trocava ideias sobre o retorno à vida de solteiro. Dúvidas, exigências, até que ponto dá para ceder, a conversa seguia por aí. Afinal, é bom ou não estar "na pista"? Que lugares frequentar, etc. Até chegarmos ao indefectível: tem de tudo na noite. Pra reforçar ele citou: "Outro dia, numa festa, três mulheres me perguntaram: 'dá licença, você é gay?'" Perceberam? Três mulheres numa mesma noite!

domingo, 27 de junho de 2010

Ouvi de Elisa Lucinda

Termos da nova dramática (Parem de falar mal da rotina)

Parem de falar mal da rotina
parem com essa sina anunciada
de que tudo vai mal porque se repete.
Mentira. Bi-mentira:
não vai mal porque repete.
Parece, mas não repete
não pode repetir
É impossível!
O ser é outroo dia é outroa hora é outra
e ninguém é tão exato.
Nem filme.Pensando firme
nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:
chuva dia azul crepúsculo primavera lua cheia céu estrelado barulho do mar
O que que há?
Parem de falar mal da rotina
beijo na boca
mão nos peitinhos
água na sede
flor no jardim
colo de mãe
namoro
vaidades de banho e batom
vaidades de terno e gravata
vaidades de jeans e camiseta
pecados paixões punhetas
livros cinemas gavetas
são nossos óbvios de estimação
e ninguém pra eles fala não
abraço pau buceta inverno
carinho sal caneta e quero
são nossas repetições sublimes
e não oprime o que é belo
e não oprime o que aquela hora chama de bom
na nossa peçana trama
na nossa ordem dramática
nosso tempo então é quando
nossa circunstância é nossa conjugação
Então vamos à lição:
gente-sujeito
vida-predicado
eis a minha oração.
Subordinadas aditivas ou adversativas
aproximem-se!
é verão
é tesão!
O enredo

a gente sempre todo dia tece
o destino aí acontece:o bem e o mal
tudo depende de mim
sujeito determinado da oração principal.

(29 de outubro de 1997)

Ouvi de Elisa Lucinda 2

Safena

Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até ao auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tintas, tijolo
comecem a obra!Por amor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro
passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.

Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Peitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou eu de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões

Vassouras, rodos, águas, flanelas e ceras
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate

O homem que hoje me amar
encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

Mulher moderna

Essa ouvi de uma das pessoas mais queridas e inteligentes que conheço. Ela foi convidada para jantar na casa de uma colega de trabalho. Daquelas que fazem a linha descolada, abrem a vida sexual para quem quiser -- e não quiser -- ouvir. Que dá em cima de homens, mulheres e animais de pequeno porte. Enfim, uma mulher que se acha liberada (sic).
Tudo certo, dentro da antecedência social. Topou mais por cordialidade do que por disposição. Ia rever antigos e atuais colegas e, certamente, comer bem. A data ia chegando e ela percebia um certo desconforto da anfitriã sempre que tocava no evento: teria acontecido algum problema? Os dias foram passando e horas antes do combinado, ela recebeu um telefonema. "Queria muito falar com você antes do jantar?", dizia esbaforida a dona da festa do outro lá linha. "Pode falar, por favor, fique à vontade".
"Estou muito sem graça porque te convidei para jantar e me toquei que você é a única solteira. Será que você se incomoda? Vai ficar chateada? " A minha amiga respondeu: "tudo bem, eu posso comer na copa." História real.

sábado, 26 de junho de 2010

A doçura do mundo, de Thrity Umrigar

Um livro despretencioso com um achado:

"Essa é a vantagem de ser casado, pensou. Há sempre alguém no nosso time quando a gente enfrenta uma batalha com o mundo." (li joje na página 70 do livro da editora Record)

Duas histórias curtas

Duas histórias curtas

Primeira
O genro de meia-idade sai da banheiro dos sogros segurando umas revistas "Playboy". A idéia é fazer piada com a sogra, que passa em frente à suíte. Mas antes que ele pudesse abrir a boca, ela o surpreende dizendo para ele voltar com as as revistas para o banheiro, que ela costuma comprá-las para o marido de 80 anos!

Segunda
Depois de mais de vinte anos, o casamento chega ao fim. O motivo? a filha caçula flagrou o pai se masturbando diante da tela do computador. No primeiro momento, não comentou nada com a mãe, mas mudou tanto de comportamento que todos perceberam que alguma coisa havia acontecido. A mulher não aceitou a história e saiu de casa com os quatro filhos do casal

O corte (em novembro de 2008)

Já que isso é para ser também um diário, faltou dizer que, enfim, cortei o cabelo: mudei, radicalmente, e gostei. e, como era esperado, trouxe uma história do salão. Não tive saída: gastei um quantia constrangedora no mãos-de-tesoura mais badalado do momento. Cheguei um pouco antes do horário e pedi uma manicure para pintar minha unhas de Desejo, da Risqué. Ele, como sempre, me atendeu na hora marcada. De frente para o espelho, depois de a assistente me envelopar com aquela capinha preta, Eduardo se posiciona atrás da cadeira e me pergunta olhando para o espelho: o que vamos fazer? Eu me encaro no espelho e, como vem acontecendo nos últimos tempos, custo a me reconhecer.

Como estou pagando caro, não quero nem saber...Digo a ele que faça o que quiser, que estou precisando mesmo mudar de cara, que me separei, etc. Eduardo arregala os olhos, mostrando que entendeu tudo, chama atenção para a minha boa forma e sugere que eu arranje um personal trainner(!!!). Isso mesmo!!! Agora, quem arregala os olhos sou eu, de espanto. Ele entende, novamente, e acrescenta: "É, minha querida, como diz o Cazuza, o nosso amor a gente inventa".

Eduardo pode não ter a presença de espírito do tal Cris, o cabeleireiro que fez a minha escova há uns posts atrás. Só não dá pra negar que Eduardo, de boca fechada, com suas tesouras, faz um bem danado às mulheres. Todas saem de lá exultantes e, realmente, mais bonitas. As cifras assustam, é verdade. Agora, ele é gênio e eu sai de lá gostando, no mínimo, desta nova imagem. "Bem mais fresh", nas palavras do próprio. Já ouvi que estou queimando um carma, tenho certeza que estou mais leve.

Imperador em setembro de 2009

Eu nunca dei tanto em cima de um homem. Não era exatamente o meu tipo e não parava de me olhar. Assim que teve oportunidade, pediu o telefone. Dei o número e ele ligou na hora para conferir. Depois, fui eu quem ligou zilhões de vezes. Pus os pingos nos is. Eu queria te comer. Não dava conta de dormir com tanto tesão.

Tratamos do assunto. O entusiasmo de ambos era esperado. O carinho, o cheiro da pele me surpreenderam. Já na conversa, olho no olho, o estranho foi liquidando o velho amor que arrastava correntes dentro de mim. Bastou o primeiro beijo para expulsar o passado, me deixar sem voz, sem histórias. A gente não tinha nada para conversar.

Eu ficaria a noite inteira no frio, beijando aquele homem cheiroso, grande, gostoso, forte, poderoso, com nome de imperador . Você não tem ideia do bem que me fez. Fiquei com vontade de retribuir. Quem sabe um dia, até quem sabe. Não precisava e não terminou em poesia

O anjo e o demônio do meio-dia (14/12/2008)

A euforia com o apartamento – parece que vai (toc-toc-toc) – não impediu que o medo me deixasse mais tempo na cama do que gostaria. Toda a manhã bate um pânico paralisador. Será que passa se dormir até meio-dia? Levantei em cima da hora para fazer o que havia planejado: malhar e fazer uma hora no antigo apartamento antes de seguir para uma reunião de trabalho. Consegui sair no horário previsto, mas ao passar em frente a um salão: mudança de planos! Entrei e perguntei se havia alguém disponível para fazer uma escova.
Nunca faço escova, não gosto do meu cabelo liso. A intenção era mesmo dar uma variada. Segurar um pouco as pontas antes de decidir se corto ou não. Cris estava disponível. Mulato, gorducho, com o cabelo colado na cabeça, à primeira vista não me disse muita coisa. Mal deu tempo de apoiar a bolsa na cadeira e assistente me levou para o lavatório.
Adoro lavar a cabeça no salão e pedi, como sempre: água fria!!! Na cadeira ao lado, uma conhecida comentou como eu estava magra. Perguntou se era por causa das corridas. “Corrida e uma certa angústia”, falei sem pensar. Não tenho a menor intimidade com ela. Mal sei o nome da pessoa que, meio sem graça, comentou: “pelo menos, a sua angústia emagrece. A minha me faz engordar”. O que dizer depois disso? Ficar quietinha e desfrutar da massagem no meu couro-cabeludo.
De frente para o espelho, na cadeira do Cris, fui logo me apressando em avisar: “olhe, não gosto do meu cabelo esticado”. Ele respondeu: “faz muito bem, nada daquele cabelo de Iemanjá que as brasileiras adoram”. Pronto, me arrancou um sorriso.
Enquanto escovava o meu cabelo e levantava o meu histórico capilar, acabei contando que ando adiando a decisão de cortar porque estou vivendo uma situação difícil, acabei de me separar, etc. “Separou, é? Vai casar de novo rapidinho....” Dei outro sorriso e fechei a cara "rapidinho"quando ele emendou “vai casar mais duas vezes”. Socorro!
Tentei me concentrar na “Vogue” que estava no meu colo, só que o Cris me roubava a atenção. Voltou ao Brasil há um ano depois de passar 25 vivendo em Nova York. Lá, teve um salão, trabalhou no Carnegie Hall e era muito feliz. Veio para o Brasil porque a mãe adoeceu. E não se arrepende. Para ele, o melhor momento é sempre o presente, repetia enquanto elogiava o meu cabelo. “Você devia fazer uma hidratação com chá verde.” “E também devia deixar o cabelo maior mesmo. Você é alta e magra, fica mais feminina com o cabelo mais longo.” De repente, me toquei: “quando virei alta e magra?”
Nunca fui gorda e, de fato, perdi bastante peso no último ano. Mais ainda nestas duas semanas. Só que tenho dificuldade de me apresentar como uma mulher magra. Semana passada, o Karl comentou que eu estava perdendo a bunda e que, sem bunda, eu perco a minha graça. Bom de se ouvir, né? Respondi que isso aconteceu porque levei um pé na bunda. Ele, claro, não gostou da piada. Também não gostei do que ele falou. Segue-se.
Enquanto o Cris contava dos livros que escreveu. Todos psicografados. A maioria em inglês. Trabalhou também como jornalista e está pensando em desenvolver uma atividade voluntária, como por exemplo, ensinar inglês para crianças carentes. Não dá nem tempo de comentar. São tantas informações. Eu me divido entre as histórias dele e a minha imagem no espelho. Não dá para dizer que não me reconheço. Mesmo assim, estou muito diferente. Quero saber no que me transformei e ainda não tenho resposta.
A escova ficou boa. Agradeço e afirmo que foi bom ter trocado a malhação pelo salão. Estou me sentindo melhor, penso e fico na minha.. “Você está muito leve, com um astral puríssimo, você já está livre de todas as preocupações. Você gosta de girassóis? “, pergunta e, finalmente, faz uma pausa para me ouvir: “gosto, acho que são as minhas flores favoritas.” É a deixa: “estou te vendo cercada de girassóis”. Pronto, ele arranca mais um sorriso de mim e chego a cogitar se não deveria cortar o cabelo com ele de uma vez. Eu me contenho e digo apenas que vou voltar. Realmente, me sinto melhor, pego o celular e vejo 12:04.

Paixão, Pedro, Paixão

Porque se matam as saudades....


Trago um bocado do tecido rasgado e quero encontrar o todo, mas não encontro
ninguém,

pior, encontro alguém que me vem provar, sem remissão, que não o vou poder

substituir tão facilmente,

porque não há mais nada no mundo inteiro depois dele, senão um deserto de

tempo que se estende à minha frente,

onde tudo se torna insignificante e pequenino....


(Pedro Paixão)

Pizza

(depoimento colhido no domingo, 15 de junho de 2003, 23:16:48, que entra no blog à guisa de exercício. outros textos antigos devem ser postados para que as histórias não se percam.)


"Vamos combinar que sexo por sexo não é o fim do mundo. A verdadeira negação do amor – próprio – é a transa acidental. Por carência ou por falta do que fazer mesmo. São essas situações que me fazem lembrar do dia em que, depois de ouvir os detalhes de um dos meus piores encontros, o interlocutor virou e me disse: “entendi, você preferia ter acordado com uma caixa de pizza ao seu lado?” Dependendo de quantas fatias houvesse na embalagem, sim! A ressaca moral pode ser mais devastadora do que a culpa de uma orgia gastronômica de má qualidade.
Voltemos à situação “seria melhor ter devorado seis fatias de calabresa”. Estava na cara que, se eu não tomasse nenhuma atitude, ia rolar alguma coisa. Ele era o tipo do sujeito que se achava irresistível e me cravou de elogios e olhares o dia inteiro. Sem contar naquela mãozinha apertando o meu ombro, ao anunciar para toda a mesa sua mais recente constatação. “Ela é mesmo inteligente!” “Ela “ era eu que merecia o elogio por observar que os mauis de foto eram da Ilha de Páscoa. Uau!!!
O fato é que, como ensinava Renan Miranda, aquela alma queria reza. E, por comodismo, carência, preguiça ou curiosidade, não ignorei as preces. No bar do hotel, depois que todos os colegas haviam ido embora, ficamos praticamente sozinhos. Ao me ver acuada, lancei a minha estratégia de sempre, meu plano de fuga. “Vou dormir...O dia foi puxado e estou até com um pouco de dor nas costas”, justifiquei me sentindo a dona da situação. Por que cargas d’àgua fui falar da minha escoliose toráxica grave? Profissional, ele não perdeu a oportunidade, virou para mim e garantiu que era craque em massagem. Eu me lembro que cheguei a desconversar por alguns instantes. Quando, finalmente, tomei coragem, me levantei, percebi que não havia bebido tanto assim e me despedi com a maior educação. Uma intensa jornada de trabalho nos esperava no dia de seguinte. “Até manhã, então?”, encerrei. “Eu subo com você”, emendou. Juro que entendi que ele iria para o quarto dele. Pelo menos até o instante em que o elevador parou no meu andar e ele me seguiu.
Mas, o que há demais em duas pessoas adultas conversando sozinhas dentro de um quarto de hotel? Mania minha de erotizar tudo...Pois bem, no que abri a porta, levei-o direto para a varanda, vencendo o obstáculo daquela cama, tal qual uma pedra, no meio do caminho. Ao fingir a maior naturalidade, danei a falar – sempre faço isso nos momentos de aproximação/tensão. Lépida que só, elogiei a noite, as estrelas, o clima, até que senti ele me abraçando por trás e beijando a minha nuca. Fiquei muda, estática. Ai, meu Deus!! Não quero nada com esse cara, pensava. Foi então que ouvi uma das frases mais marcantes e definitivas da terceira década da minha vida . “Sabe que você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci.” Recapitulando, aquele homem estava no meu quarto, me agarrando e dissertando sobre a minha capacidade intelectual...Como pode haver alguém tão burro!!! Será que aquela criatura não tem a mais pálida idéia de que, àquela altura do campeonato, o elogio mais lisonjeiro que uma mulher espera ouvir é “gostosa”? De qualquer maneira devo agradecê-lo. De volta ao Rio, me matriculei numa academia de ginástica e me tornei uma espécie de envangélica da malhação.
Agora, voltemos à varanda, onde para completar, nevava...Carente, bêbada, louca, dei uma risadinha cretina e permiti que ele continuasse como dono da situação. E, de fato, ele era. Eu estava ocupada demais me concentrando em ficar parada. A verdade é que me sentia péssima, tonta, com dor nas costas, pernas com depilação vencida e inchada de TPM. Por puro incômodo e incapacidade de jogá-lo longe, virei e encarei o beijo que, por sinal, não foi ruim. Não foi mesmo. Pela primeira vez, estava começando a gostar da história...De repente, me lembrei do jeito simpático que ele se dirigia a mim e notei que ele ficava bem com aquela camisa branca àgnes b.
O moço tinha estilo e pronto. Não vou negar. O problema, devidamente, ressaltado nas primeiras linhas desse texto, estava na falta de tesão. Ou melhor, na minha incapacidade de dizer: “não, obrigada!”. Bem, os beijos – meu ponto-fraco – foram ficando melhores e, de repente, ele se lembrou da massagem. Vestida, deitada na cama, cadê que eu conseguia relaxar com as mãos dele deslizando entre o meu pescoço e as minhas costas. Não sou de ferro! Éramos dois adultos dentro de um quarto, eu já disse. Empolgadíssimos, começamos a nos abraçar.
Corte para ele pedindo um tempo para pendurar a camisa nas costas da cadeira. Não acreditei!!! Aquele profissional da sedução se preocupava em dobrar a roupa!!! Tratava-se do último sinal de que aquele encontro não daria certo, uma dica tão clara quanto aquela história de inteligência. A catástrofe estava anunciada e eu não queria ver. E ninguém, com certeza, vai querer. Poucos minutos depois, aliás, pouquíssimos, ele já estava nos trinques com sua camisa deslumbrante para dentro da calça maravilhosa. Levei o moço à porta, tomei um bom banho e dormi.
Durante o café da manhã, um dos nossos colegas soltou a indefectivel afirmação “é...parece que a noite foi boa”. De óculos escuros, dentro do restaurante, nos dois, sem nos encararmos, nos apressamos em esclarecer aquela observação idiota. “Dancei até de madrugada”, disse ele, entretido com a cumbuca de corn flakes. Antes que terminasse a frase, interrompi. “Que disposição a sua! Acho que bebi demais e dormi a noite inteira como um anjo”. Só me faltou contar que havia sonhado com uma pizza calabresa tamanho gigante.
"


Resposta a um amigo querido que nunca vi pessoalmente

Léo, como gosto de saber das coisas que vão na sua cabeça. Ouvir um pouco da tua tristeza, das chateações -- odeio também ficar sem treinar, dormir pouco ou me alimentar mal. Perco a linha quando minhas necessidades básicas não são atendidas. E faço um esforço para não me deixar tomar pelas amolações do dia-a-dia.

Imaginei que você estivesse atolado por causa do Festival. Mas essa doença do seu gato parece te mobilizar -- ou imobilizar -- ainda mais. E as crianças? Como estão reagindo? Dizem que essa experiência com bichos é muito importante para que elas se adaptem com os ciclos da vida. Ou, melhor, com O CICLO da vida. Um vez escrevi um texto associando a morte do meu cachorro atropelado -- o primeiro cadáver que vi na vida, com a morte do meu pai num acidente de trânsito e o meu medo de dirigir.

Já estou aqui me abrindo para você...Não tem jeito, Léo. A gente não aprende a lidar com as perdas. A gente se incomoda de perder a rotina -- o treino, o almoço, o sono, como vai dar conta de lidar com os afetos que não voltam mais?

Gostaria de poder te confortar. Como você sempre faz comigo. O máximo que posso dizer é, aquilo que você, já sabe: durma, alimente-se bem e lembre-se que passa,

Beijo,

Uma história de dor de amor que passou

A noite de ontem prometia e cumpriu.Fui ao inferno e voltei para ficar mais coerente com a minha idade, o meu estilo. Remédio, músicas, leituras, orações, choro, trash tv, trash food, pensamentos trash, internet lixo...dormi exausta. Acordei pronta. E, agora, 24 horas depois, passada uma jornada tranquila de traballho, depois de 7,5 km de um corrida num tempo razoável, num dia de bom cabelo e roupa correta, enxergo o ganho, ou melhor, o ponto.
O ponto final da nossa história. Um caso de amor que eu quis tanto. Uma ausência que me fez lembrar o tamanho do meu buraco. Como se tivessem -- quem? -- me dado o direito de por a cabeça para fora, para tomar um ar, respirar, inspirar profundamente. Tá explicado o estrago. nem parecia para tanto. Era bem aquele caso que gosto tanto de lembrar: eu, que vivia na urgência de largar o que não era fácil, tentava a certeza de que vida poderia sim ser bem pior sem a companhia dele?
Como já li: "às vezes é melhor uma rendição do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim. não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim." Eu penso assim e você já sabe e isso não adianta mais nada. O nosso, amorzinho, casinho, não tinha sequer começado. Que peninha. Que triste sair por aí catacando caquinhos. Equilibrando os pedacinhos nas mãos convoca todo mundo, meio sem-jeito -- sonhos, desejos, projetos, amigos, parentes -- e diz, olhe, não era bem isso que a gente tava pensando: fomos despejados.
Passou o susto e de nada adianta a minha vontade. Você não me quer. O pretexto da amizade, de se manter por perto era só mais um capricho desse seu jeito culpado -- sim -- mas irressistivelmente gentil. Sorte da sua nova namorada. Sorte de quem jamais quis alguma coisa com você. Sério, só lamento o tamanho da intimidade. Por ora, vou ficando. Bem. cada vez melhor. Acredite, não se preocupe. Sua alegria não me deixa constrangida. E, por favor, tente despir a ironia das minhas palavras: cuide bem de você.

Reparação (de 2009)

Não sei se foi a realização do sonho olímpico, a certeza de que era um dia de cabelo bom, de figurino correto. Tomei coragem e corri atrás de um prejuízo de mais de sete anos. Procurei um caso mal-resolvido. Uma paixão platônica bruscamente interrompida, que não fazia o menor sentido ser reavivada mas que também não dava para fingir que nunca existira. Pelo menos, para mim, não dava. Felizmente fui bem recebida.
E os dois, que se quiseram tanto sem jamais trocarem um olhar, estavam lá, frente-à-frente. Não houve constrangimentos, não faltou assunto e falaram do que sentiram, do rompimento abrupto, que, hoje ela reconhecia, não poderia mesmo ter sido evitado. Não foi para deixá-lo à vontade que ela admitiu que, anos depois, viveu o mesmo papel da mulher dele. Infelizmente, lamentou, o marido dela não fora tão elegante.
Sem desviar o olhar -- ela fazia questão de acompanhá-lo --, ele reafirmou o ciúmes da mulher. Em nenhum momento, a chamou de louca, destemperada, ou qualquer coisa parecida. "O pai dela foi um galinha e talvez por isso ela tenha um sexto sentido tão aguçado", justicava para dizer, novamente, mas pela primeira vez cara-a-cara, que não estava disposto a magoar a mulher por causa de uma relação platônica.
Ela prestava atenção a cada palavra. Ele parecia tão cansado e não recusou o convite. Depois de tantos anos. Ela sentia um orgulho danado de ter tomado a iniciativa. Nem importava que estivessem em local tão público. Os dois não tinham nada a esconder. Deu até para ela reclamar de uma mancada que ele cometera anos atrás ao misturar a história dos dois com questões profissionais.
Como ela se sentia segura. Como ele parecia doce. Sem mistérios. Retomaram a intimidade do tempo da troca de mensagem. Um deixou claro por outro que o episódio deixou marcas. E, felizmente, não tem nada demais. De lá para cá, ela casou, separou, casou e separou de novo. Hoje, tem um buraco no peito. Ele continuou fiel ao amor da juventude e voltou para o Brasil. E, agora, vive a expectativa de encaminhar os filhos.
Antes, ela vivia na América e ele na Europa. Hoje, um mora na Urca e o outro no Humaitá. Um oceano ainda os separa. A diferença é a troca de olhares. A possibilidade do abraço.
No começo, o que me chamou a atenção foi o cabelo destruído da moça. Observação que, na verdade, diz mais sobre mim do que sobre ela. Não sei dizer quem chegou primeiro, mas me sentei duas filas de cadeira atrás deles naquela sala no terceiro andar do prédio anexo da Igreja Nossa Senhora de Copacabana. Naquela quinta-feira chuvosa, à noite, umas cinquenta pessoas participavam do curso de preparação para pais e padrinhos. De costas, o dois pareciam um casal jovem. Ela, muito bonita de corpo, vestida de bermuda jeans, camiseta e sandália rasteira, apesar do mau tempo. Ele, com aquela obesidade típica dos homens que se consideram grandes, usava jeans e camisa pólo listrada. De perfil, eu conseguia ver que ele tinha aparelho nos dentes e um rádio preso no cinto.

Corriam cinco minutos da palestra e eu não parava de me surpreender. Primeiro com a fluência do apresentador e depois com a resposta que eles deram quando foram perguntados há quantos anos estavam casados: 7! Eles pareciam tão jovens!! Ou será que eu estou mesmo tão velha. Fiquei imaginando se eles estavam lá como pais ou padrinhos. E, de repente, me dei conta que não era única que prestava atenção nos dois. O sujeito que dava a palestra se voltou, novamente , para eles e comentou que com certeza o início do namoro ele devia mimá-la com flores e bombons. A intenção era mostrar que o amor é mais que um sentimento, mas um conjunto de atitudes. Ela devolveu dizendo que ganhava flores e bombons até hoje, enquanto ele concordava com a cabeça.

Ele voltou a concordar com cabeça ainda com mais entusiasmo quando entramos no tema reciprocidade do afeto. Assim como o apresentador, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio na cintura, também achava que todo relacionamento está fadado ao fracasso quando esperamos que o outro nos faça feliz. Que o grande lance é justamente cuidar do bem-estar do outro, seja marido, mulher, filho, irmão ou amigo. Nesse instante fiz a fantasia de que ele, realmente, tratava bem da mulher.

Cantamos, rezamos, nos comportamos todos muito bem, tanto que mantive a minha atenção no palco, longe da plateia. No final da noite, algumas considerações sobre o traje apropriado para o batismo. Crianças de branco, homens de bermuda nem pensar. Para as mulheres, muitas recomendações e uma justificava, no mínimo, esquisita: devem evitar excessos para não distrair o padre. Isso mesmo, o padre!!! Na sequencia, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio no cinto, comentou: “se o padre olhar para você eu cubro ele de porrada!!”
Acontece: por mais que a gente goste de assumidamente de prestar atenção na conversa dos outros, algumas histórias roubam a nossa atenção. Não faltava muito para eu descer do ônibus. O trânsito estava tranquilo e não tinha como deixar de ouvir o diálogo entre o motorista e uma passageira lá no primeiro banco. Na verdade, um monólogo porque a senhora não abriu a boca desde que ele mandou: "Fui casado durante onze anos e meu casamento acabou, de repente, só porque ela descobriu que eu tinha um filho de nove anos."
Quem ficaria blasé diante de uma afirmação dessas? Cheguei a me preocupar se daria para ouvir mais um pouquinho da história antes de o meu ponto chegar. Felizmente, uma obra parou o tráfego e nós dois ganhamos tempo: ele para desabafar e eu pra conhecer o desfecho da situação. E sabe como a mulher, a quem ele chamava de esposa, ficou sabendo de tudo? A filha chegou em casa e mandou: "mãe, um garoto lá da escola disse que é meu irmão." Depois desse clímax, perdi o fio-da-meada e só deu para recuperar na parte em que safada da outra quis matricular o menino no mesmo colégio só para sacaneá-lo.
Ela gostava disso. Volta e meia, fazia questão de passar em frente ao bar onde ele ia tomar um chopinho com a mulher. Todos moravam perto e sempre que se encontravam ele conseguia segurar a onda, fingir que não via, dava um jeito. E ela, apesar de olhar, nunca teve coragem de chegar perto ou puxar assunto. O sinal parecia quebrado. Ninguém se mexia e deu para saber que não teve jeito para salvar o casamento.
A mulher arrumou as coisas dele e o pôs para fora de casa entre o Natal e o Ano Novo. Era aniversário dela e a desnaturada nem levou isso em conta. Como pode? Ele foi para casa da mãe e está lá até hoje. Seis meses se passaram. Ele tem uma namorada que mora sozinha e já o convidou para viverem juntos. "Ela é solteira e tem casa própria, mas acho melhor não". Ele nem espera a passageira perguntar por que não se muda. "Na casa da minha mãe é aquela coisa, né? Ela não deixa que pague nada, tenho sempre roupa lavada e passada e aquele copo de coca-cola geladinho na hora do almoço."