Ela já passava dos quarenta, tinha se casado duas vezes e, como São Paulo, mantinha a fé. Todos os dias pedia a Deus que lhe arrumasse um marido bom, que a amasse muito e ainda fosse rico. O ritual deu certo, dizia exultante para as colegas da hidroginástica. "Nós estamos juntos há dez anos. Claro que temos problemas, como todos os casais, mas nunca fui tão feliz num relacionamento."
Ao lado dela, uma senhora de mais de 70 prestava atenção por delicadeza e também por interesse. Ela andava muito preocupada com a filha caçula, que, na faixa dos quarenta, levava uma vida amorosa bastante atribulada. Por isso, aproveitou a oportunidade para perguntar:
"como vocês se conheceram?"
Parece que a outra estava mesmo esperando por isso. Redobrou o fôlego e respondeu que era corretora de imóveis e o marido a procurou para comprar uma casa. "Ele havia se separado. Estava arrasado e queria trocar o Rio pela Serra. Eu o recebi como mais um cliente, não pensei em nada. Mas, tive dificuldade para achar uma casa como que ele queria e acabamos ficando amigos. Depois, começamos a namorar. Hoje, eu vivo no mesmo imóvel que vendi."
“Escrevo porque as pessoas que amei já morreram. Escrevo porque quando era menina havia em mim muita força para amar, e agora esta força está morrendo. Eu não quero morrer." (Meu Michel, Amós Oz) Também escrevo de tanto ouvir que: ou eu conto as histórias, ou elas tomam conta de mim.
domingo, 25 de julho de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
Essa fizeram questão de me contar...
"Vamos chamá-lo de imperador. Ele tinha nome de imperador e eu nunca dei tanto em cima de um homem. Não era exatamente o meu tipo e não parava de me olhar. Assim que teve oportunidade, pediu o telefone. Dei o número e ele ligou na hora para conferir. Depois, fui eu quem ligou zilhões de vezes. Pus os pingos nos is: eu queria transar com você. Não dava conta de dormir com tanto tesão.
Tratamos do assunto. O entusiasmo de ambos era esperado. O carinho, o cheiro da pele me surpreenderam. Já na conversa, olho no olho, o estranho foi liquidando o velho amor que arrastava correntes dentro de mim. Bastou o primeiro beijo para expulsar o passado, me deixar sem voz, sem histórias. A gente não tinha nada para conversar.
Eu ficaria a noite inteira no frio, beijando aquele homem cheiroso, grande, gostoso, forte, poderoso, com nome de imperador . Você não tem ideia do bem que me fez. Fiquei com vontade de retribuir. Quem sabe um dia, até quem sabe. Não precisava e não terminou em poesia."
Ouvi num café
Puxei a cadeira. Não queria olhar a rua e me sentei de frente para o balcão. Antes de fazer o pedido, ouvi: “meus pais nunca mais vieram ao Rio por causa das nossas brigas”. Ao meu lado, duas moças bonitas e descoladas. Quem falava era a mais baixinha. Por que ela brigava tanto com os pais depois da adolescência e ainda por cima vivendo em cidades -- talvez países -- diferentes? A atendente chegou a minha mesa, eu disse que queria capuccino pequeno e meia-porção de pão-de-queijo. Não imaginei que fosse demorar tanto.
Não tinha a menor intenção de ouvir aquela história e queria sair correndo dali para minha ginástica. Era dia de plantão e, como sempre, sentia aquela necessidade de fazer algo por mim antes de começar a trabalhar. Já que só me restava esperar, preferia me distrair com uma história mais leve, divertida, curiosa. Fiquei pensando em como as mulheres se expõem mais do que homens. Não costumo levar muito a sério essas distinções de gênero. Sou de uma geração pós-feminismo. Daquelas que surtam ao tentar dividir responsabilidades com os parceiros, enquanto mantêm a ternura e a barriguinha sarada.Bem, tudo isso para dizer que detesto a ideia de associar o caráter ao gênero. Homens e mulheres são igualmente bacanas ou sacanas.
De resto, reconheço, existem diferenças. Raramente, a gente encontra dois amigos dividindo intimidades num café numa das ruas movimentadas da cidade. Resumo, ela não parava de brigar era com o marido. Mas não tinha como bancar um apartamento sozinha. A amiga veio de Campinas para visitá-la e elas estavam tomando café fora de casa para esclarecer a situação: “eu não queria comentar com você tudo isso com ele por perto”.
A amiga demonstrou um certo constrangimento e só abriu a boca quando ela contou sobre o dia em que o namorado a jogou no chão. “Isso é muito grave, Marisa.” Ela admitiu que sim com a cabeça e continuou: “ele tinha cheirado para caramba naquele dia. Foi para Lapa com um amigo beber e depois saiu direto para boca. Chegou em casa agitado. E acho que me empurrou sem querer.”
Engoli o capuccino, pedi o pão-de-queijo para viagem e parti. Não queria ouvir mais nada. Repito não aceito as máximas de que os homens são todos canalhas e nós vítimas do nosso romantismo. O meu dia seguiu como planejei -- até porque naquele sábado, não era dona do meu tempo. Mesmo assim, volta e meia, me perguntava: quantos homens tolerariam tanto num relacionamento? Quantos se manteriam numa relação furada porque não podem bancar um aluguel? Será que isso é uma questão de gênero?
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Ouvi de Stella Florence (http://itodas.uol.com.br/amor-e-sexo/quando-doi-tudo/)
Aquela consulta havia sido marcada por sua irmã e foi apenas por conta de sua insistência que ela estava ali. Os apelos e queixumes da família já eram tão constantes que uma visita ao médico traria menos transtornos.
Como ela poderia explicar a eles? Algumas coisas são tão óbvias que falar sobre elas se torna penoso ou ridículo. Ainda assim, ao que parece, ela precisaria não apenas explicar o óbvio, como também embasá-lo com um diagnóstico médico, diagnóstico coroado por um remedinho tarja preta de preferência.
As revistas do consultório traziam na capa casais que não estavam mais juntos, grávidas que há muito haviam parido, famosos que caíram no esquecimento e cenas de novela das oito cujo enredo hoje se repetia com outros atores e outro título. Suas opções eram folhear aquelas revistas, observar os outros pacientes ou fechar os olhos, simulando um sono que nem de leve sentia. Porém, não foi preciso escolher: em alguns minutos ela foi chamada na sala 4.
Uma vez deitada na maca, o médico perguntou, forçando os dedos contra o peito dela:
— Onde dói?
Ela então franziu a testa, arreganhou os dentes e… desceu. Desceu vertiginosamente para dentro de si mesma.
“Onde dói?”, pensou. “Dói meu peito que permanece curvado em pranto. Doem meus ombros que não suportam o peso da saudade. Doem meus ouvidos secos de palavras carinhosas. Doem meus rins que não filtram a saliva amarga da solidão. Doem meus pés que não têm por quem caminhar. Dói meu sexo que não se abriu para o filho. Doem meus olhos que não encontram senão a casa vazia. Dói meu couro cabeludo que não recebe os unguentos do cafuné. Dói minha garganta congestionada de gritos não dados. Doem meus braços que se atrofiaram por não mais abraçarem meu homem. Dói minha língua na clausura eterna dos dentes. Dói meu estômago que não digere a ausência dele”.
— Dói tudo, doutor. Dói simplesmente tudo, porque meu corpo não é só essa carne óbvia em cuja massa dedos afundam procurando um nódulo, uma urticária, uma veia estourada. Dói tudo porque em tudo a alma se coloca e a alma, doutor, a alma sente sem analgésicos.
Mas é claro que eu sei que vai passar, não sou nenhuma ignorante dos mecanismos da vida para, mesmo sob essa dor doída de alma doente, me jogar de uma ponte ou tomar quarenta comprimidos de um tranquilizante qualquer. Sei que vai passar. Minha razão sabe que vai passar. Sei também que o único tratamento recomendado ao meu caso é o tempo. Sei de tudo isso, tudo isso me é claro, mas por enquanto, por favor, faça esta caridade, doutor: não pergunte onde dói.
*Stella Florence nasceu em 67, tem uma filha, 30 tatuagens e sete livros, entre eles “Hoje Acordei Gorda” e “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”. A mescla de humor e drama, além do verbo ácido, se tornou a marca registrada de sua literatura. Stella é tão alucinada por Gabriel García Márquez que sua cama (sim, sua cama!) tem o mesmo apelido do escritor colombiano: Gabo. Cada louco com sua mania… www.stellaflorence.com
Como ela poderia explicar a eles? Algumas coisas são tão óbvias que falar sobre elas se torna penoso ou ridículo. Ainda assim, ao que parece, ela precisaria não apenas explicar o óbvio, como também embasá-lo com um diagnóstico médico, diagnóstico coroado por um remedinho tarja preta de preferência.
As revistas do consultório traziam na capa casais que não estavam mais juntos, grávidas que há muito haviam parido, famosos que caíram no esquecimento e cenas de novela das oito cujo enredo hoje se repetia com outros atores e outro título. Suas opções eram folhear aquelas revistas, observar os outros pacientes ou fechar os olhos, simulando um sono que nem de leve sentia. Porém, não foi preciso escolher: em alguns minutos ela foi chamada na sala 4.
Uma vez deitada na maca, o médico perguntou, forçando os dedos contra o peito dela:
— Onde dói?
Ela então franziu a testa, arreganhou os dentes e… desceu. Desceu vertiginosamente para dentro de si mesma.
“Onde dói?”, pensou. “Dói meu peito que permanece curvado em pranto. Doem meus ombros que não suportam o peso da saudade. Doem meus ouvidos secos de palavras carinhosas. Doem meus rins que não filtram a saliva amarga da solidão. Doem meus pés que não têm por quem caminhar. Dói meu sexo que não se abriu para o filho. Doem meus olhos que não encontram senão a casa vazia. Dói meu couro cabeludo que não recebe os unguentos do cafuné. Dói minha garganta congestionada de gritos não dados. Doem meus braços que se atrofiaram por não mais abraçarem meu homem. Dói minha língua na clausura eterna dos dentes. Dói meu estômago que não digere a ausência dele”.
— Dói tudo, doutor. Dói simplesmente tudo, porque meu corpo não é só essa carne óbvia em cuja massa dedos afundam procurando um nódulo, uma urticária, uma veia estourada. Dói tudo porque em tudo a alma se coloca e a alma, doutor, a alma sente sem analgésicos.
Mas é claro que eu sei que vai passar, não sou nenhuma ignorante dos mecanismos da vida para, mesmo sob essa dor doída de alma doente, me jogar de uma ponte ou tomar quarenta comprimidos de um tranquilizante qualquer. Sei que vai passar. Minha razão sabe que vai passar. Sei também que o único tratamento recomendado ao meu caso é o tempo. Sei de tudo isso, tudo isso me é claro, mas por enquanto, por favor, faça esta caridade, doutor: não pergunte onde dói.
*Stella Florence nasceu em 67, tem uma filha, 30 tatuagens e sete livros, entre eles “Hoje Acordei Gorda” e “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”. A mescla de humor e drama, além do verbo ácido, se tornou a marca registrada de sua literatura. Stella é tão alucinada por Gabriel García Márquez que sua cama (sim, sua cama!) tem o mesmo apelido do escritor colombiano: Gabo. Cada louco com sua mania… www.stellaflorence.com
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Banheiro feminino
"Eu deixo a água quente cair sobre o meu corpo para relaxar a musculatura e também para me sentir mais viva", ela me disse olhando para mim enquanto se enxugava no banheiro da academia. Tentei disfarçar o desconforto de ser convocada para participar da intimidade dela. Queria demonstrar naturalidade. Ela precisava falar. E eu gosto de ouvir histórias. Pelos motivos mais diversos e também por compaixão.
Claro que aquela mulher simpática e em forma queria me contar um caso de amor mal-sucedido. Mesmo com pressa. Estou sempre com pressa e não gosto disso. Bem, apesar de atrasada -- vamos falar o português claro, eu parei de secar o cabelo e me virei para ela. Eu queria prestar atenção e deixar isso evidente. Ela gostou e prosseguiu: "estou tentando me recuperar do fim de um namoro. Não durou muito tempo. Menos de seis meses, mas foi muito gostoso, a gente se dava bem, se divertia e, pelo primeira vez, sentia que estava namorando de verdade. Até, então, tive casamentos ou casos, você me entende? " queria saber ela, que aparentava uma idade entre 35 e 40 anos.
Respondi com a cabeça que entendia. Eu não estava ali para falar."Mas, por que acabou, então, eu pensava já elencando os clichês do universo feminino de banca de revista e psicologia barata: ele tinha medo de se entregar, ela o assustava. " Felizmente, não repeti nenhuma dessas bobagens. Ela continuo: "ele me deu um pé na bunda. Depois de um dia dos namorados lindo, de uma viagem para praia de muito sexo, carinho e comida boa. Estranhei porque ele foi me buscar no trabalho. Ele sempre dizia que o meu escritório ficava no lugar mais contra-mão do mundo. Mal a gente entrou no carro, andou 5 minutos, ele disse que tinha uma coisa chata para me dizer. Eu tremi. Incrível, nesses momentos, sinto uma descarga de energia semelhante a um orgasmo. Preciso conversar com meu terapeuta sobre isso. "
Ela olhava para mim, enquanto terminava de se vestir, e mesmo assim parecia indiferente a qualquer coisa que eu dissesse ou mesmo um interjeição de solidariedade. Parecia que eu não estava ali. "Depois de anunciar a bomba", continuo ela, "ele desfiou os maiores elogios que já ouvi na minha vida: que eu era perfeita, linda, inteligente, carinhosa, divertida, que os amigos dele e o filhos me adoravam. Que a terapeuta dava força para a nossa história. Só que ele não me amava. Simples assim."
Nesse instante, eu havia frisado, sem saber o que dizer, sem saber o que fazer, procurava qualquer coisa na minha necessaire. O que se pode dizer numa hora dessas? Eu me lembrei da Stella Florence. Em uma de suas crônicas, ela recomenda que a gente não preste atenção em nada que venha antes de um "mas" em qualquer discurso, de um homem, da mãe, da melhor amiga ou do chefe.
Eu já estava morrendo de pena daquela moça. Mas a dor e a história não paravam ali. Dias depois, ela soube que ele havia voltado para a ex. Uma ex a quem ele chamava, no mínimo, de estelionatária, que o havia desancado na internet. E que a terapeuta - de novo (!!) - havia rotulado como uma droga, com o potencial destruir do álcool, etc. Ou, seja, pouco mais de uma semana, o ex-namorado já estava feliz e satisfeito ao lado de uma outra de quem ele só falara mal.
Ela não devia, admitiu. Mas foi cobrar satisfação. Ele perguntou quem era ela para julgar as contradições da vida dele. Ela não queria julgar. Só queria confirmar se era isso mesmo. "A revelação", ela tentava me explicar, "tirou um peso dos meus ombros". O coração continuou em frangalhos. "Afinal, tudo que viveram foi bom apenas para ela? Ela foi usada para ele dar um tempo e olhar o grande amor da vida dele em perspectiva?"
Vamos combinar, todo mundo usa todo mundo, pensei comigo. É fato e mesmo assim não consola ninguém. Ela está com a auto-estima no pé. Ela acaba de se arrumar e eu a acho tão bonita. Só que prefiro não dizer. Em certas situações, elogios fazem mal. O que dizer a uma mulher que tentou, investiu, queimou navios e não conquistou o amor de um homem? Cartas para esse blog. Eu a encontro, de vez em quando, no espelho da academia.
domingo, 4 de julho de 2010
Imagem
Perguntei a um fotógrafo fera em retratos quem era mais difícil de fotografar. Não sei se
a pergunta era recorrente, a resposta fácil demais, ou as duas coisas. Ele não teve dúvida: "mulher que foi muito bonita". E explicou dizendo que essas têm consciência do que perderam. Triste? Quis saber, então, os mais dóceis diante da câmera. Ele também disparou: "homem velho e feio. Ele não espera nada. O que vier é lucro!"
sexta-feira, 2 de julho de 2010
O assunto
Um dos princípios desse blog é evitar comentários sobre homem. Mulher perde tanto tempo falando em homem. Não sei se pela vantagem numérica, pela criação, pelos hormônios, nem os mais devotados gastam tanta saliva e neurônio tentando interpretar os nossos sinais.
A determinação de pular o assunto é um exercício de estilo, de mudança de postura, etc. Mas, claro que, no mundo real, a situação continua parecida. E depois que eu soltei uma tirada sobre um possível ficante, a minha melhor amiga insistiu: "ah, põe isso no blog." E, respondi: "não, já disse que não. Milhões de vezes: não!"
Para tentar me convencer, ela, que também tem mania de ouvir conversa, saiu com essa: "não tem jeito. esse é o único assunto que nos interessa. Quando estou na pracinha com o meu filho, ouço as babás falarem sobre casamento, namoro, traição, enfim...só querem saber de homem."
Socorro!!!
A determinação de pular o assunto é um exercício de estilo, de mudança de postura, etc. Mas, claro que, no mundo real, a situação continua parecida. E depois que eu soltei uma tirada sobre um possível ficante, a minha melhor amiga insistiu: "ah, põe isso no blog." E, respondi: "não, já disse que não. Milhões de vezes: não!"
Para tentar me convencer, ela, que também tem mania de ouvir conversa, saiu com essa: "não tem jeito. esse é o único assunto que nos interessa. Quando estou na pracinha com o meu filho, ouço as babás falarem sobre casamento, namoro, traição, enfim...só querem saber de homem."
Socorro!!!
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