sábado, 26 de junho de 2010

No começo, o que me chamou a atenção foi o cabelo destruído da moça. Observação que, na verdade, diz mais sobre mim do que sobre ela. Não sei dizer quem chegou primeiro, mas me sentei duas filas de cadeira atrás deles naquela sala no terceiro andar do prédio anexo da Igreja Nossa Senhora de Copacabana. Naquela quinta-feira chuvosa, à noite, umas cinquenta pessoas participavam do curso de preparação para pais e padrinhos. De costas, o dois pareciam um casal jovem. Ela, muito bonita de corpo, vestida de bermuda jeans, camiseta e sandália rasteira, apesar do mau tempo. Ele, com aquela obesidade típica dos homens que se consideram grandes, usava jeans e camisa pólo listrada. De perfil, eu conseguia ver que ele tinha aparelho nos dentes e um rádio preso no cinto.

Corriam cinco minutos da palestra e eu não parava de me surpreender. Primeiro com a fluência do apresentador e depois com a resposta que eles deram quando foram perguntados há quantos anos estavam casados: 7! Eles pareciam tão jovens!! Ou será que eu estou mesmo tão velha. Fiquei imaginando se eles estavam lá como pais ou padrinhos. E, de repente, me dei conta que não era única que prestava atenção nos dois. O sujeito que dava a palestra se voltou, novamente , para eles e comentou que com certeza o início do namoro ele devia mimá-la com flores e bombons. A intenção era mostrar que o amor é mais que um sentimento, mas um conjunto de atitudes. Ela devolveu dizendo que ganhava flores e bombons até hoje, enquanto ele concordava com a cabeça.

Ele voltou a concordar com cabeça ainda com mais entusiasmo quando entramos no tema reciprocidade do afeto. Assim como o apresentador, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio na cintura, também achava que todo relacionamento está fadado ao fracasso quando esperamos que o outro nos faça feliz. Que o grande lance é justamente cuidar do bem-estar do outro, seja marido, mulher, filho, irmão ou amigo. Nesse instante fiz a fantasia de que ele, realmente, tratava bem da mulher.

Cantamos, rezamos, nos comportamos todos muito bem, tanto que mantive a minha atenção no palco, longe da plateia. No final da noite, algumas considerações sobre o traje apropriado para o batismo. Crianças de branco, homens de bermuda nem pensar. Para as mulheres, muitas recomendações e uma justificava, no mínimo, esquisita: devem evitar excessos para não distrair o padre. Isso mesmo, o padre!!! Na sequencia, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio no cinto, comentou: “se o padre olhar para você eu cubro ele de porrada!!”

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