segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Já que estamos falando da vida do Niemeyer

Uma das minhas primeiras matérias de capa do Segundo Caderno foi o lançamento da pedra fundamental do MAC, em Niterói. Saímos do Globo, fomos até escritório do Niemeyer em Copabacana. Depois de dar um chá-de-cadeira na equipe -- naquele tempo: fotógrafo, motorista e repórter, ele foi praticamente mudo durante o trajeto. E daí, eu era uma foca -- hoje, essa expressão faz tanto sentido, ia "dar" um
a primeira página?!!! Tinha lido toooda a pesquisa e ia no carro pensando em lead, título, etc. Ao chegar no terreno, a surpresa! Aquele senhor caladão, com cheiro de cigarrilha, se transformou: passou a andar rápido de um lado para o outro, a fazer perguntas sobre o acervo. Juro, uma empolgação que deixou a foca cansada.
Nem lembro se a matéria ficou boa. Quem me conhece sabe que não transformo todo mundo que morre em herói e, mais, evito ao máximo a síndrome de Estocolmo em relação ao entrevistado mesmo quando estou diante de um gênio. Tantos anos depois seria uma recaída daquelas. É só mesmo mais uma reflexão sobre o privilégio de se trabalhar no que se gosta. Talvez essa seja uma das fórmulas da longevidade. Só mais uma reflexão. Como não sei desenhar, escrevo.

DESMORONAMENTO

 Ela acorda e procura o Iphone na mesinha ao lado da cama. Põe o som do aparelho, vê as horas, checa se há torpedo. Ele não mandou um sinal sequer. "Quase 10 horas, puxa vida!" O dia corre, os compromissos a esperam ela começa achar bom a ausência de contato. Para uma história sem futuro, já foram longe demais. "Nos conhecemos, nos divertimos, já valeu. No hard feelings, just soft ones", ela repete e adora essa expressão ! !
 E, sinceramente, se alguém tem mesmo que dar um basta, melhor que seja ele. Não parece desonesto, nem mesmo deselegante. Mentira dizer que os dois esperavam outro desfecho. A partir daí o que viria? Sofrimento. Mentira? Definitivamente, os dois não merecem. Ninguém merece! !
 O dia corre e, logo, ela já esqueceu a decepção de acordar sem o beijinho virtual. Que
romance mais sem pé nem cabeça é esse num momento em que a vida se mostra tão
cheia de possibilidades? Um certo alívio a deixa ainda mais tranquila antes da hora do
almoço: "foi melhor assim", tem certeza e vai até lembrar de comentar sobre isso com a amiga mais tarde no trabalho. Ela está mesmo firme, segura. E é assim que desmorona de alegria quando o telefone toca e lê no visor:"ele".

sexta-feira, 6 de julho de 2012

O homem invisível e moça que olhava para baixo






Acho que foi durante um café que ele comentou que a gente só enxerga, de fato, aquilo que conhece. Justiça seja feita, ele não pretendia ser inédito e ela concordou porque a ideia era mesmo familiar. Mas, então, como explicar o encontro dos dois. 

Ele se considera invisível, daqueles que são apresentados ene vezes às mesmíssimas pessoas e já se acostumaram a ouvir depois de um esbarrão: 'desculpe, eu não vi você'. Ela tem que concordar quando é chamada a atenção por não olhar para frente. Já teve que apresentar na terapia uma lista com as cores dos prédios da rua onde mora. Uma espécie de exercício de olhar e ver.


Ou seja, se ninguém o via e ela não prestava atenção em nada, como poderia acontecer os dois? Pensaram até nas conspirações astrais, nas epifanias do Caio Fernando Abreu, que ambos leram ainda nas primeiras edições. Mas já faz tanto tempo, CFA caiu na rede,  e não dá para dizer, com todas as letras, que ainda acreditam.  A dúvida continua. Entre um gole de café e outro de água sem gás. Nada de resposta.
 

Quem sabe se a gente inverter a história? Se a gente contar que o homem invisível encontrou a moça que olhava para baixo. Ou, então, vai ver  que a moça olhava para baixo ajustando o foco para o invisível?