sábado, 24 de setembro de 2011

Canalha


 Canalha. Hoje fui canalha. Logo cedo, recebi um torpedo perguntando sobre a cena teatral carioca. Quem assinava? Um nome corriqueiro na minha biografia. Não liguei a mensagem à pessoa. E, me sentindo a criatura mais educada do mundo, respondi de bate-e-pronto: "acho que você errou o destinatário". Passou, corri, malhei. Era a pessoa mais gentil e feliz entre todas. Na volta para casa, de bicicleta, lembrei quem era e percebi o quanto posso ser estúpida. Não tem volta.
 Não tem volta e me trouxe à tona uma história do último fim de semana. Vejam só, fiquei chateada porque não tive resposta do torpedo que mandei para alguém depois de vê-lo passar pela Lagoa. Ele, pelo menos, me deu o benefício da dúvida. Cricrici. Posso pirar e achar que ele não está nem aí para a portabilidade e mudou o número do celular. Para o episódio de hoje não há desculpa. Fui canalha
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Comprometida


  Conte comigo. Se você estiver precisando de ajuda para trabalho, saúde, ou qualquer coisa realmente importante. Espero que você saiba que pode me procurar. Jamais me negaria a estender a mão. Por gratidão, talvez. Por compaixão, certamente. Daí a você me mandar um email dizendo que "gostaria muito que eu aceitasse" o seu convite para uma festa de aniversário discreta-com-cerca-de-40-pessoas é um pouco demais.
 Ao terminar de ler a mensagem, a primeira reação foi lembrar o meu mantra durante o nosso casamento:  faça o esforço de se colocar no meu lugar e imagine qual seria o meu papel? Ao lado de quem eu me sentaria? Com quem conversaria? Com as suas amigas, aquelas cheias de duplo sentido e muitas cortinas-de-fumaça. Com seus amigos, que, para mim, jamais existiram?  Bobagem! Lugar? Papel? Nada disso importa mais. E já faz um bocado de tempo.
 Não pretendo negar a sua importância na minha vida. Nem para o bem, nem para o mal. Agora, se você não sabe, vou te contar, depurar tanto ressentimento foi libertador, mas duríssimo. Portanto, não pretendo fingir que me sinto confortável na sua presença.
 Continuo achando muito estranho o convite. Pensei em deixar sem resposta. Afinal, você me ensinou, senão há o que dizer,  melhor calar. Quebrei o silêncio. É a minha cara. Não gosto de ficar sem resposta. Você deve se lembrar disso.
 Boa sorte. É bom saber que você tem motivos para comemorar, que virei passado e, na sua avaliação, poderia  me juntar ao "Parabéns para você" para você. Só que não vai rolar.  Não posso esperar pela fatia do seu bolo de aniversário. Assumi um compromisso. Comigo. E também com quem cuidou de mim para que a dor virasse, outra vez, amor. Estou comprometida.

Estou pensando em você

 A solidão aparece e o pensamento é sempre o mesmo: ele. Aquele amor surrado, super amado, hiper-desgastado, apaixonado. Ela parece presa a ele. Ela se sente presa a ele. Acha que quer amar de novo, imagina que não vai conseguir. Procura, caça e arrasta para caverna. Repetida vezes. Há dias em que sonha com arrebatamentos. Outros, contenta-se com calmaria. Precisa preencher um vazio. Um buraco que, sabe, sempre existiu e não tem fundo mesmo. Mas que, por algum tempo, esteve esquecido. Quem pensa em falta, em problema, quando está apaixonado? Quando acredita viver um grande amor?
 Os Aborrecimentos formam fila durante a insônia. Entre um carneirinho e outro, surge o trabalho que podia ter ficado melhor, a falta de cuidado com o próximo, o desrespeito com a dieta, o prazo do texto, o vencimento das contas, o pedido de exame em que gaveta mesmo? --, o filho adiado, o pedido desculpas que ficou faltando, o dinheiro desperdiçado, a boa-ação que não passou de intenção, não, não e não. Pequenas e grandes mancadas escavadas a unha quando tudo já vai mesmo de mal a pior. Ideias inúteis. Falta de compaixão em degraus e lá no alto da pilha: ele!
http://www.youtube.com/watch?v=C6CwjOKttq0&list=PL2E49946F2FB87077&index=12

É a minha condição

 Você leva tudo muito a sério. Não viaja. Ouvi isso tantas vezes que estou convencida: pouca coisa mudou desde os tempos em que perguntava a minha mãe como se fazia para dar um tempo e parar de pensar. Eu já era uma chaleirinha.  Meditação, terapia,  pílulas de budismo, zilhões de técnicas de relaxamento, exercícios respiratórios, massagens, programações não sei lá das quantas, trabalho, quilômetros de corrida. Será que nada adiantou? Antes, eram os mais velhos. Agora, é a vez dos mais jovens mandarem: "desencana" -- aliás, ainda se diz "desencana"? 
 Mas aqui neste blog, me dê licença, eu vou encanar e pronto. Tenho certeza que, pelo menos, não me levo à sério. Rio de mim mesma e não sinto um pingo de vergonha de voltar atrás. Portanto, resolvi ampliar minha imagem e voltar a reduzi-la num abre e fecha de grãos...mudar de perspectiva, perder de vez o foco para, quem sabe, ajustá-lo. Eu  sinto que preciso me expor de alguma forma. Só quero  tomar cuidado para não posar de vítima ou inventora das maravilhas e mazelas do mundo pós-modernos. Não sou nem uma coisa, nem outra. Nem, peloamordedeus, quero discutir se algum dia fomos modernos, "Eu não sou diferente de ninguém, quase todo mundo faz assim: eu me viro bem melhor quando tá mais para bom que para ruim. Eu não quero causar impacto nem tampouco sensação..." (São Lulu Santos)
http://www.youtube.com/watch?v=rsMTr68ApOI

domingo, 4 de setembro de 2011

Você gosta de mim e seu marido também

 Olhe, não queira ser minha amiga. Gosto de verdade de você, te acho linda, gente fina, admiro a tua carreira e os seus filhos. Só não quero ser sua amiga. Sabe como é, romper o limite da cordialidade. Ir além dos "obas e olás" e daquela rasgação de seda nos vaivéns da vida. Não consigo passar daí, não seria espontâneo. Sei lá. Não me sinto confortável. O que acontece? Seu marido me canta. Chato, né? Eu acho. 
 Não te vejo como vítima. Nem consigo chamá-lo de canalha. Não sei o tipo de acordo que existe entre vocês. Nem estou aí para as escolhas de cada um. Tenho certeza que muita gente vive feliz num triângulo. Sou eu que não me sinto à vontade. Torço pela felicidade de vocês e acho que, olhando assim de fora, vocês formam uma linda família. E quem sou eu para tentar provar o contrário? Eu só não dou conta de ser sua amiga. 

sábado, 3 de setembro de 2011

3 de setembro, 30 anos depois

 Há 30 anos, num dia 3 de setembro, minha vida mudou para sempre. Eu havia chegado da Cultura e esperava a Rosinha servir o almoço. Estava com a camisa de tergal azul do São Vicente e parei para atender o telefone, que tocava no corredor entre a sala e copa. O começo do diálogo vem confuso à memória. Só lembro bem quando o homem do outro lado linha chamou a minha atenção: 'A notícia não é boa. Seu pai sofreu um acidente na Grota Funda: foi levado para um hospital. Parece que é grave."
 Era. Depois de trinta dias em coma, meu pai morreu. De lá para cá, negação, tristeza, luto, saudade. Venho levando como dá. Não publico esse texto para me fazer de vítima. A dor é minha. Quero mesmo deixar registrado que hoje tive um 3 de setembro feliz como tantos outros dias da minha vida. Graças à presença de pessoas queridas. Quem sabe essa lembrança não serve de consolo para outros ou me ajude, no futuro, a não esquecer. Tudo passa, o tempo ajuda...verdades incontestáveis. E, no me caso, o amor continua sendo o melhor remédio. Amém.