A euforia com o apartamento – parece que vai (toc-toc-toc) – não impediu que o medo me deixasse mais tempo na cama do que gostaria. Toda a manhã bate um pânico paralisador. Será que passa se dormir até meio-dia? Levantei em cima da hora para fazer o que havia planejado: malhar e fazer uma hora no antigo apartamento antes de seguir para uma reunião de trabalho. Consegui sair no horário previsto, mas ao passar em frente a um salão: mudança de planos! Entrei e perguntei se havia alguém disponível para fazer uma escova.
Nunca faço escova, não gosto do meu cabelo liso. A intenção era mesmo dar uma variada. Segurar um pouco as pontas antes de decidir se corto ou não. Cris estava disponível. Mulato, gorducho, com o cabelo colado na cabeça, à primeira vista não me disse muita coisa. Mal deu tempo de apoiar a bolsa na cadeira e assistente me levou para o lavatório.
Adoro lavar a cabeça no salão e pedi, como sempre: água fria!!! Na cadeira ao lado, uma conhecida comentou como eu estava magra. Perguntou se era por causa das corridas. “Corrida e uma certa angústia”, falei sem pensar. Não tenho a menor intimidade com ela. Mal sei o nome da pessoa que, meio sem graça, comentou: “pelo menos, a sua angústia emagrece. A minha me faz engordar”. O que dizer depois disso? Ficar quietinha e desfrutar da massagem no meu couro-cabeludo.
De frente para o espelho, na cadeira do Cris, fui logo me apressando em avisar: “olhe, não gosto do meu cabelo esticado”. Ele respondeu: “faz muito bem, nada daquele cabelo de Iemanjá que as brasileiras adoram”. Pronto, me arrancou um sorriso.
Enquanto escovava o meu cabelo e levantava o meu histórico capilar, acabei contando que ando adiando a decisão de cortar porque estou vivendo uma situação difícil, acabei de me separar, etc. “Separou, é? Vai casar de novo rapidinho....” Dei outro sorriso e fechei a cara "rapidinho"quando ele emendou “vai casar mais duas vezes”. Socorro!
Tentei me concentrar na “Vogue” que estava no meu colo, só que o Cris me roubava a atenção. Voltou ao Brasil há um ano depois de passar 25 vivendo em Nova York. Lá, teve um salão, trabalhou no Carnegie Hall e era muito feliz. Veio para o Brasil porque a mãe adoeceu. E não se arrepende. Para ele, o melhor momento é sempre o presente, repetia enquanto elogiava o meu cabelo. “Você devia fazer uma hidratação com chá verde.” “E também devia deixar o cabelo maior mesmo. Você é alta e magra, fica mais feminina com o cabelo mais longo.” De repente, me toquei: “quando virei alta e magra?”
Nunca fui gorda e, de fato, perdi bastante peso no último ano. Mais ainda nestas duas semanas. Só que tenho dificuldade de me apresentar como uma mulher magra. Semana passada, o Karl comentou que eu estava perdendo a bunda e que, sem bunda, eu perco a minha graça. Bom de se ouvir, né? Respondi que isso aconteceu porque levei um pé na bunda. Ele, claro, não gostou da piada. Também não gostei do que ele falou. Segue-se.
Enquanto o Cris contava dos livros que escreveu. Todos psicografados. A maioria em inglês. Trabalhou também como jornalista e está pensando em desenvolver uma atividade voluntária, como por exemplo, ensinar inglês para crianças carentes. Não dá nem tempo de comentar. São tantas informações. Eu me divido entre as histórias dele e a minha imagem no espelho. Não dá para dizer que não me reconheço. Mesmo assim, estou muito diferente. Quero saber no que me transformei e ainda não tenho resposta.
A escova ficou boa. Agradeço e afirmo que foi bom ter trocado a malhação pelo salão. Estou me sentindo melhor, penso e fico na minha.. “Você está muito leve, com um astral puríssimo, você já está livre de todas as preocupações. Você gosta de girassóis? “, pergunta e, finalmente, faz uma pausa para me ouvir: “gosto, acho que são as minhas flores favoritas.” É a deixa: “estou te vendo cercada de girassóis”. Pronto, ele arranca mais um sorriso de mim e chego a cogitar se não deveria cortar o cabelo com ele de uma vez. Eu me contenho e digo apenas que vou voltar. Realmente, me sinto melhor, pego o celular e vejo 12:04.
“Escrevo porque as pessoas que amei já morreram. Escrevo porque quando era menina havia em mim muita força para amar, e agora esta força está morrendo. Eu não quero morrer." (Meu Michel, Amós Oz) Também escrevo de tanto ouvir que: ou eu conto as histórias, ou elas tomam conta de mim.
sábado, 26 de junho de 2010
O anjo e o demônio do meio-dia (14/12/2008)
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