terça-feira, 29 de junho de 2010

Internet, cartas e carinho

Não há dano que o mal uso da internet possa fazer que não seja batido pelos benefícios da rede. E, olhe, não estou me referindo às informações nas pontas dos dedos. Quero falar mesmo de comunicação, de emoção. Como é bom saber de amigos e parentes distantes geograficamente ou, apenas, pela rotina. O aviso de um alô me faz lembrar de quando era criança e corria para receber o carteiro no portão.
Mas, desde quando crianças recebem carta? A minha correspondência se limitava aos cartões postais dos parentes em viagem e os cartões de natal. Lembram disso? Essa ausência de novidades -- como eu gostava de dizer -- me dava uma frustração...
Uma pontinha de tristeza que não passou despercebida pelo meu pai. Naquele tempo,os pais só trabalhavam. Lembram disso? Mesmo assim, o meu teve o cuidado de reparar essa lacuna na minha vida postal e passou e me mandar cartões anônimos. Eram bichinhos, flores, bonequinhas. Nas costas o texto datilografado. Lembram disso?
Lindo, ? E, hoje, tenho certeza que revivo essa alegria nos scraps, comentários, etc, que, felizmente, aparecem na tela. Muito obrigada a todos pelo carinho! Lembrem disso!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Na pista

Um amigo gay, lindo, com menos de trinta, acaba de sair de um namoro de nove meses. Entre margaritas, água mineral sem gás e wraps, a gente trocava ideias sobre o retorno à vida de solteiro. Dúvidas, exigências, até que ponto dá para ceder, a conversa seguia por aí. Afinal, é bom ou não estar "na pista"? Que lugares frequentar, etc. Até chegarmos ao indefectível: tem de tudo na noite. Pra reforçar ele citou: "Outro dia, numa festa, três mulheres me perguntaram: 'dá licença, você é gay?'" Perceberam? Três mulheres numa mesma noite!

domingo, 27 de junho de 2010

Ouvi de Elisa Lucinda

Termos da nova dramática (Parem de falar mal da rotina)

Parem de falar mal da rotina
parem com essa sina anunciada
de que tudo vai mal porque se repete.
Mentira. Bi-mentira:
não vai mal porque repete.
Parece, mas não repete
não pode repetir
É impossível!
O ser é outroo dia é outroa hora é outra
e ninguém é tão exato.
Nem filme.Pensando firme
nunca ouvi ninguém falar mal de determinadas rotinas:
chuva dia azul crepúsculo primavera lua cheia céu estrelado barulho do mar
O que que há?
Parem de falar mal da rotina
beijo na boca
mão nos peitinhos
água na sede
flor no jardim
colo de mãe
namoro
vaidades de banho e batom
vaidades de terno e gravata
vaidades de jeans e camiseta
pecados paixões punhetas
livros cinemas gavetas
são nossos óbvios de estimação
e ninguém pra eles fala não
abraço pau buceta inverno
carinho sal caneta e quero
são nossas repetições sublimes
e não oprime o que é belo
e não oprime o que aquela hora chama de bom
na nossa peçana trama
na nossa ordem dramática
nosso tempo então é quando
nossa circunstância é nossa conjugação
Então vamos à lição:
gente-sujeito
vida-predicado
eis a minha oração.
Subordinadas aditivas ou adversativas
aproximem-se!
é verão
é tesão!
O enredo

a gente sempre todo dia tece
o destino aí acontece:o bem e o mal
tudo depende de mim
sujeito determinado da oração principal.

(29 de outubro de 1997)

Ouvi de Elisa Lucinda 2

Safena

Sabe o que é um coração
amar ao máximo de seu sangue?
Bater até ao auge de seu baticum?
Não, você não sabe de jeito nenhum.
Agora chega.
Reforma no meu peito!
Pedreiros, pintores, raspadores de mágoas
aproximem-se!
Rolos, rolas, tintas, tijolo
comecem a obra!Por amor, mestre de Horas
Tempo, meu fiel carpinteiro
comece você primeiro
passando verniz nos móveis
e vamos tudo de novo do novo começo.

Iansã, Oxum, Afrodite, Vênus e Nossa Senhora
apertem os cintos
Adeus ao sinto muito do meu jeito
Peitos ventres pernas
aticem as velas
que lá vou eu de novo na solteirice
exposta ao mar da mulatice
à honra das novas uniões

Vassouras, rodos, águas, flanelas e ceras
Protejam as beiras
lustrem as superfícies
aspirem os tapetes
Vai começar o banquete
de amar de novo
Gatos, heróis, artistas, príncipes e foliões
Façam todos suas inscrições.
Sim. Vestirei vermelho carmim escarlate

O homem que hoje me amar
encontrará outro lá dentro.
Pois que o mate.

Mulher moderna

Essa ouvi de uma das pessoas mais queridas e inteligentes que conheço. Ela foi convidada para jantar na casa de uma colega de trabalho. Daquelas que fazem a linha descolada, abrem a vida sexual para quem quiser -- e não quiser -- ouvir. Que dá em cima de homens, mulheres e animais de pequeno porte. Enfim, uma mulher que se acha liberada (sic).
Tudo certo, dentro da antecedência social. Topou mais por cordialidade do que por disposição. Ia rever antigos e atuais colegas e, certamente, comer bem. A data ia chegando e ela percebia um certo desconforto da anfitriã sempre que tocava no evento: teria acontecido algum problema? Os dias foram passando e horas antes do combinado, ela recebeu um telefonema. "Queria muito falar com você antes do jantar?", dizia esbaforida a dona da festa do outro lá linha. "Pode falar, por favor, fique à vontade".
"Estou muito sem graça porque te convidei para jantar e me toquei que você é a única solteira. Será que você se incomoda? Vai ficar chateada? " A minha amiga respondeu: "tudo bem, eu posso comer na copa." História real.

sábado, 26 de junho de 2010

A doçura do mundo, de Thrity Umrigar

Um livro despretencioso com um achado:

"Essa é a vantagem de ser casado, pensou. Há sempre alguém no nosso time quando a gente enfrenta uma batalha com o mundo." (li joje na página 70 do livro da editora Record)

Duas histórias curtas

Duas histórias curtas

Primeira
O genro de meia-idade sai da banheiro dos sogros segurando umas revistas "Playboy". A idéia é fazer piada com a sogra, que passa em frente à suíte. Mas antes que ele pudesse abrir a boca, ela o surpreende dizendo para ele voltar com as as revistas para o banheiro, que ela costuma comprá-las para o marido de 80 anos!

Segunda
Depois de mais de vinte anos, o casamento chega ao fim. O motivo? a filha caçula flagrou o pai se masturbando diante da tela do computador. No primeiro momento, não comentou nada com a mãe, mas mudou tanto de comportamento que todos perceberam que alguma coisa havia acontecido. A mulher não aceitou a história e saiu de casa com os quatro filhos do casal

O corte (em novembro de 2008)

Já que isso é para ser também um diário, faltou dizer que, enfim, cortei o cabelo: mudei, radicalmente, e gostei. e, como era esperado, trouxe uma história do salão. Não tive saída: gastei um quantia constrangedora no mãos-de-tesoura mais badalado do momento. Cheguei um pouco antes do horário e pedi uma manicure para pintar minha unhas de Desejo, da Risqué. Ele, como sempre, me atendeu na hora marcada. De frente para o espelho, depois de a assistente me envelopar com aquela capinha preta, Eduardo se posiciona atrás da cadeira e me pergunta olhando para o espelho: o que vamos fazer? Eu me encaro no espelho e, como vem acontecendo nos últimos tempos, custo a me reconhecer.

Como estou pagando caro, não quero nem saber...Digo a ele que faça o que quiser, que estou precisando mesmo mudar de cara, que me separei, etc. Eduardo arregala os olhos, mostrando que entendeu tudo, chama atenção para a minha boa forma e sugere que eu arranje um personal trainner(!!!). Isso mesmo!!! Agora, quem arregala os olhos sou eu, de espanto. Ele entende, novamente, e acrescenta: "É, minha querida, como diz o Cazuza, o nosso amor a gente inventa".

Eduardo pode não ter a presença de espírito do tal Cris, o cabeleireiro que fez a minha escova há uns posts atrás. Só não dá pra negar que Eduardo, de boca fechada, com suas tesouras, faz um bem danado às mulheres. Todas saem de lá exultantes e, realmente, mais bonitas. As cifras assustam, é verdade. Agora, ele é gênio e eu sai de lá gostando, no mínimo, desta nova imagem. "Bem mais fresh", nas palavras do próprio. Já ouvi que estou queimando um carma, tenho certeza que estou mais leve.

Imperador em setembro de 2009

Eu nunca dei tanto em cima de um homem. Não era exatamente o meu tipo e não parava de me olhar. Assim que teve oportunidade, pediu o telefone. Dei o número e ele ligou na hora para conferir. Depois, fui eu quem ligou zilhões de vezes. Pus os pingos nos is. Eu queria te comer. Não dava conta de dormir com tanto tesão.

Tratamos do assunto. O entusiasmo de ambos era esperado. O carinho, o cheiro da pele me surpreenderam. Já na conversa, olho no olho, o estranho foi liquidando o velho amor que arrastava correntes dentro de mim. Bastou o primeiro beijo para expulsar o passado, me deixar sem voz, sem histórias. A gente não tinha nada para conversar.

Eu ficaria a noite inteira no frio, beijando aquele homem cheiroso, grande, gostoso, forte, poderoso, com nome de imperador . Você não tem ideia do bem que me fez. Fiquei com vontade de retribuir. Quem sabe um dia, até quem sabe. Não precisava e não terminou em poesia

O anjo e o demônio do meio-dia (14/12/2008)

A euforia com o apartamento – parece que vai (toc-toc-toc) – não impediu que o medo me deixasse mais tempo na cama do que gostaria. Toda a manhã bate um pânico paralisador. Será que passa se dormir até meio-dia? Levantei em cima da hora para fazer o que havia planejado: malhar e fazer uma hora no antigo apartamento antes de seguir para uma reunião de trabalho. Consegui sair no horário previsto, mas ao passar em frente a um salão: mudança de planos! Entrei e perguntei se havia alguém disponível para fazer uma escova.
Nunca faço escova, não gosto do meu cabelo liso. A intenção era mesmo dar uma variada. Segurar um pouco as pontas antes de decidir se corto ou não. Cris estava disponível. Mulato, gorducho, com o cabelo colado na cabeça, à primeira vista não me disse muita coisa. Mal deu tempo de apoiar a bolsa na cadeira e assistente me levou para o lavatório.
Adoro lavar a cabeça no salão e pedi, como sempre: água fria!!! Na cadeira ao lado, uma conhecida comentou como eu estava magra. Perguntou se era por causa das corridas. “Corrida e uma certa angústia”, falei sem pensar. Não tenho a menor intimidade com ela. Mal sei o nome da pessoa que, meio sem graça, comentou: “pelo menos, a sua angústia emagrece. A minha me faz engordar”. O que dizer depois disso? Ficar quietinha e desfrutar da massagem no meu couro-cabeludo.
De frente para o espelho, na cadeira do Cris, fui logo me apressando em avisar: “olhe, não gosto do meu cabelo esticado”. Ele respondeu: “faz muito bem, nada daquele cabelo de Iemanjá que as brasileiras adoram”. Pronto, me arrancou um sorriso.
Enquanto escovava o meu cabelo e levantava o meu histórico capilar, acabei contando que ando adiando a decisão de cortar porque estou vivendo uma situação difícil, acabei de me separar, etc. “Separou, é? Vai casar de novo rapidinho....” Dei outro sorriso e fechei a cara "rapidinho"quando ele emendou “vai casar mais duas vezes”. Socorro!
Tentei me concentrar na “Vogue” que estava no meu colo, só que o Cris me roubava a atenção. Voltou ao Brasil há um ano depois de passar 25 vivendo em Nova York. Lá, teve um salão, trabalhou no Carnegie Hall e era muito feliz. Veio para o Brasil porque a mãe adoeceu. E não se arrepende. Para ele, o melhor momento é sempre o presente, repetia enquanto elogiava o meu cabelo. “Você devia fazer uma hidratação com chá verde.” “E também devia deixar o cabelo maior mesmo. Você é alta e magra, fica mais feminina com o cabelo mais longo.” De repente, me toquei: “quando virei alta e magra?”
Nunca fui gorda e, de fato, perdi bastante peso no último ano. Mais ainda nestas duas semanas. Só que tenho dificuldade de me apresentar como uma mulher magra. Semana passada, o Karl comentou que eu estava perdendo a bunda e que, sem bunda, eu perco a minha graça. Bom de se ouvir, né? Respondi que isso aconteceu porque levei um pé na bunda. Ele, claro, não gostou da piada. Também não gostei do que ele falou. Segue-se.
Enquanto o Cris contava dos livros que escreveu. Todos psicografados. A maioria em inglês. Trabalhou também como jornalista e está pensando em desenvolver uma atividade voluntária, como por exemplo, ensinar inglês para crianças carentes. Não dá nem tempo de comentar. São tantas informações. Eu me divido entre as histórias dele e a minha imagem no espelho. Não dá para dizer que não me reconheço. Mesmo assim, estou muito diferente. Quero saber no que me transformei e ainda não tenho resposta.
A escova ficou boa. Agradeço e afirmo que foi bom ter trocado a malhação pelo salão. Estou me sentindo melhor, penso e fico na minha.. “Você está muito leve, com um astral puríssimo, você já está livre de todas as preocupações. Você gosta de girassóis? “, pergunta e, finalmente, faz uma pausa para me ouvir: “gosto, acho que são as minhas flores favoritas.” É a deixa: “estou te vendo cercada de girassóis”. Pronto, ele arranca mais um sorriso de mim e chego a cogitar se não deveria cortar o cabelo com ele de uma vez. Eu me contenho e digo apenas que vou voltar. Realmente, me sinto melhor, pego o celular e vejo 12:04.

Paixão, Pedro, Paixão

Porque se matam as saudades....


Trago um bocado do tecido rasgado e quero encontrar o todo, mas não encontro
ninguém,

pior, encontro alguém que me vem provar, sem remissão, que não o vou poder

substituir tão facilmente,

porque não há mais nada no mundo inteiro depois dele, senão um deserto de

tempo que se estende à minha frente,

onde tudo se torna insignificante e pequenino....


(Pedro Paixão)

Pizza

(depoimento colhido no domingo, 15 de junho de 2003, 23:16:48, que entra no blog à guisa de exercício. outros textos antigos devem ser postados para que as histórias não se percam.)


"Vamos combinar que sexo por sexo não é o fim do mundo. A verdadeira negação do amor – próprio – é a transa acidental. Por carência ou por falta do que fazer mesmo. São essas situações que me fazem lembrar do dia em que, depois de ouvir os detalhes de um dos meus piores encontros, o interlocutor virou e me disse: “entendi, você preferia ter acordado com uma caixa de pizza ao seu lado?” Dependendo de quantas fatias houvesse na embalagem, sim! A ressaca moral pode ser mais devastadora do que a culpa de uma orgia gastronômica de má qualidade.
Voltemos à situação “seria melhor ter devorado seis fatias de calabresa”. Estava na cara que, se eu não tomasse nenhuma atitude, ia rolar alguma coisa. Ele era o tipo do sujeito que se achava irresistível e me cravou de elogios e olhares o dia inteiro. Sem contar naquela mãozinha apertando o meu ombro, ao anunciar para toda a mesa sua mais recente constatação. “Ela é mesmo inteligente!” “Ela “ era eu que merecia o elogio por observar que os mauis de foto eram da Ilha de Páscoa. Uau!!!
O fato é que, como ensinava Renan Miranda, aquela alma queria reza. E, por comodismo, carência, preguiça ou curiosidade, não ignorei as preces. No bar do hotel, depois que todos os colegas haviam ido embora, ficamos praticamente sozinhos. Ao me ver acuada, lancei a minha estratégia de sempre, meu plano de fuga. “Vou dormir...O dia foi puxado e estou até com um pouco de dor nas costas”, justifiquei me sentindo a dona da situação. Por que cargas d’àgua fui falar da minha escoliose toráxica grave? Profissional, ele não perdeu a oportunidade, virou para mim e garantiu que era craque em massagem. Eu me lembro que cheguei a desconversar por alguns instantes. Quando, finalmente, tomei coragem, me levantei, percebi que não havia bebido tanto assim e me despedi com a maior educação. Uma intensa jornada de trabalho nos esperava no dia de seguinte. “Até manhã, então?”, encerrei. “Eu subo com você”, emendou. Juro que entendi que ele iria para o quarto dele. Pelo menos até o instante em que o elevador parou no meu andar e ele me seguiu.
Mas, o que há demais em duas pessoas adultas conversando sozinhas dentro de um quarto de hotel? Mania minha de erotizar tudo...Pois bem, no que abri a porta, levei-o direto para a varanda, vencendo o obstáculo daquela cama, tal qual uma pedra, no meio do caminho. Ao fingir a maior naturalidade, danei a falar – sempre faço isso nos momentos de aproximação/tensão. Lépida que só, elogiei a noite, as estrelas, o clima, até que senti ele me abraçando por trás e beijando a minha nuca. Fiquei muda, estática. Ai, meu Deus!! Não quero nada com esse cara, pensava. Foi então que ouvi uma das frases mais marcantes e definitivas da terceira década da minha vida . “Sabe que você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci.” Recapitulando, aquele homem estava no meu quarto, me agarrando e dissertando sobre a minha capacidade intelectual...Como pode haver alguém tão burro!!! Será que aquela criatura não tem a mais pálida idéia de que, àquela altura do campeonato, o elogio mais lisonjeiro que uma mulher espera ouvir é “gostosa”? De qualquer maneira devo agradecê-lo. De volta ao Rio, me matriculei numa academia de ginástica e me tornei uma espécie de envangélica da malhação.
Agora, voltemos à varanda, onde para completar, nevava...Carente, bêbada, louca, dei uma risadinha cretina e permiti que ele continuasse como dono da situação. E, de fato, ele era. Eu estava ocupada demais me concentrando em ficar parada. A verdade é que me sentia péssima, tonta, com dor nas costas, pernas com depilação vencida e inchada de TPM. Por puro incômodo e incapacidade de jogá-lo longe, virei e encarei o beijo que, por sinal, não foi ruim. Não foi mesmo. Pela primeira vez, estava começando a gostar da história...De repente, me lembrei do jeito simpático que ele se dirigia a mim e notei que ele ficava bem com aquela camisa branca àgnes b.
O moço tinha estilo e pronto. Não vou negar. O problema, devidamente, ressaltado nas primeiras linhas desse texto, estava na falta de tesão. Ou melhor, na minha incapacidade de dizer: “não, obrigada!”. Bem, os beijos – meu ponto-fraco – foram ficando melhores e, de repente, ele se lembrou da massagem. Vestida, deitada na cama, cadê que eu conseguia relaxar com as mãos dele deslizando entre o meu pescoço e as minhas costas. Não sou de ferro! Éramos dois adultos dentro de um quarto, eu já disse. Empolgadíssimos, começamos a nos abraçar.
Corte para ele pedindo um tempo para pendurar a camisa nas costas da cadeira. Não acreditei!!! Aquele profissional da sedução se preocupava em dobrar a roupa!!! Tratava-se do último sinal de que aquele encontro não daria certo, uma dica tão clara quanto aquela história de inteligência. A catástrofe estava anunciada e eu não queria ver. E ninguém, com certeza, vai querer. Poucos minutos depois, aliás, pouquíssimos, ele já estava nos trinques com sua camisa deslumbrante para dentro da calça maravilhosa. Levei o moço à porta, tomei um bom banho e dormi.
Durante o café da manhã, um dos nossos colegas soltou a indefectivel afirmação “é...parece que a noite foi boa”. De óculos escuros, dentro do restaurante, nos dois, sem nos encararmos, nos apressamos em esclarecer aquela observação idiota. “Dancei até de madrugada”, disse ele, entretido com a cumbuca de corn flakes. Antes que terminasse a frase, interrompi. “Que disposição a sua! Acho que bebi demais e dormi a noite inteira como um anjo”. Só me faltou contar que havia sonhado com uma pizza calabresa tamanho gigante.
"


Resposta a um amigo querido que nunca vi pessoalmente

Léo, como gosto de saber das coisas que vão na sua cabeça. Ouvir um pouco da tua tristeza, das chateações -- odeio também ficar sem treinar, dormir pouco ou me alimentar mal. Perco a linha quando minhas necessidades básicas não são atendidas. E faço um esforço para não me deixar tomar pelas amolações do dia-a-dia.

Imaginei que você estivesse atolado por causa do Festival. Mas essa doença do seu gato parece te mobilizar -- ou imobilizar -- ainda mais. E as crianças? Como estão reagindo? Dizem que essa experiência com bichos é muito importante para que elas se adaptem com os ciclos da vida. Ou, melhor, com O CICLO da vida. Um vez escrevi um texto associando a morte do meu cachorro atropelado -- o primeiro cadáver que vi na vida, com a morte do meu pai num acidente de trânsito e o meu medo de dirigir.

Já estou aqui me abrindo para você...Não tem jeito, Léo. A gente não aprende a lidar com as perdas. A gente se incomoda de perder a rotina -- o treino, o almoço, o sono, como vai dar conta de lidar com os afetos que não voltam mais?

Gostaria de poder te confortar. Como você sempre faz comigo. O máximo que posso dizer é, aquilo que você, já sabe: durma, alimente-se bem e lembre-se que passa,

Beijo,

Uma história de dor de amor que passou

A noite de ontem prometia e cumpriu.Fui ao inferno e voltei para ficar mais coerente com a minha idade, o meu estilo. Remédio, músicas, leituras, orações, choro, trash tv, trash food, pensamentos trash, internet lixo...dormi exausta. Acordei pronta. E, agora, 24 horas depois, passada uma jornada tranquila de traballho, depois de 7,5 km de um corrida num tempo razoável, num dia de bom cabelo e roupa correta, enxergo o ganho, ou melhor, o ponto.
O ponto final da nossa história. Um caso de amor que eu quis tanto. Uma ausência que me fez lembrar o tamanho do meu buraco. Como se tivessem -- quem? -- me dado o direito de por a cabeça para fora, para tomar um ar, respirar, inspirar profundamente. Tá explicado o estrago. nem parecia para tanto. Era bem aquele caso que gosto tanto de lembrar: eu, que vivia na urgência de largar o que não era fácil, tentava a certeza de que vida poderia sim ser bem pior sem a companhia dele?
Como já li: "às vezes é melhor uma rendição do que fugir de um amor que não foi vivido até o fim. não antecipe o término do que ainda não acabou, espere a relação chegar até a rapa, e aí sim." Eu penso assim e você já sabe e isso não adianta mais nada. O nosso, amorzinho, casinho, não tinha sequer começado. Que peninha. Que triste sair por aí catacando caquinhos. Equilibrando os pedacinhos nas mãos convoca todo mundo, meio sem-jeito -- sonhos, desejos, projetos, amigos, parentes -- e diz, olhe, não era bem isso que a gente tava pensando: fomos despejados.
Passou o susto e de nada adianta a minha vontade. Você não me quer. O pretexto da amizade, de se manter por perto era só mais um capricho desse seu jeito culpado -- sim -- mas irressistivelmente gentil. Sorte da sua nova namorada. Sorte de quem jamais quis alguma coisa com você. Sério, só lamento o tamanho da intimidade. Por ora, vou ficando. Bem. cada vez melhor. Acredite, não se preocupe. Sua alegria não me deixa constrangida. E, por favor, tente despir a ironia das minhas palavras: cuide bem de você.

Reparação (de 2009)

Não sei se foi a realização do sonho olímpico, a certeza de que era um dia de cabelo bom, de figurino correto. Tomei coragem e corri atrás de um prejuízo de mais de sete anos. Procurei um caso mal-resolvido. Uma paixão platônica bruscamente interrompida, que não fazia o menor sentido ser reavivada mas que também não dava para fingir que nunca existira. Pelo menos, para mim, não dava. Felizmente fui bem recebida.
E os dois, que se quiseram tanto sem jamais trocarem um olhar, estavam lá, frente-à-frente. Não houve constrangimentos, não faltou assunto e falaram do que sentiram, do rompimento abrupto, que, hoje ela reconhecia, não poderia mesmo ter sido evitado. Não foi para deixá-lo à vontade que ela admitiu que, anos depois, viveu o mesmo papel da mulher dele. Infelizmente, lamentou, o marido dela não fora tão elegante.
Sem desviar o olhar -- ela fazia questão de acompanhá-lo --, ele reafirmou o ciúmes da mulher. Em nenhum momento, a chamou de louca, destemperada, ou qualquer coisa parecida. "O pai dela foi um galinha e talvez por isso ela tenha um sexto sentido tão aguçado", justicava para dizer, novamente, mas pela primeira vez cara-a-cara, que não estava disposto a magoar a mulher por causa de uma relação platônica.
Ela prestava atenção a cada palavra. Ele parecia tão cansado e não recusou o convite. Depois de tantos anos. Ela sentia um orgulho danado de ter tomado a iniciativa. Nem importava que estivessem em local tão público. Os dois não tinham nada a esconder. Deu até para ela reclamar de uma mancada que ele cometera anos atrás ao misturar a história dos dois com questões profissionais.
Como ela se sentia segura. Como ele parecia doce. Sem mistérios. Retomaram a intimidade do tempo da troca de mensagem. Um deixou claro por outro que o episódio deixou marcas. E, felizmente, não tem nada demais. De lá para cá, ela casou, separou, casou e separou de novo. Hoje, tem um buraco no peito. Ele continuou fiel ao amor da juventude e voltou para o Brasil. E, agora, vive a expectativa de encaminhar os filhos.
Antes, ela vivia na América e ele na Europa. Hoje, um mora na Urca e o outro no Humaitá. Um oceano ainda os separa. A diferença é a troca de olhares. A possibilidade do abraço.
No começo, o que me chamou a atenção foi o cabelo destruído da moça. Observação que, na verdade, diz mais sobre mim do que sobre ela. Não sei dizer quem chegou primeiro, mas me sentei duas filas de cadeira atrás deles naquela sala no terceiro andar do prédio anexo da Igreja Nossa Senhora de Copacabana. Naquela quinta-feira chuvosa, à noite, umas cinquenta pessoas participavam do curso de preparação para pais e padrinhos. De costas, o dois pareciam um casal jovem. Ela, muito bonita de corpo, vestida de bermuda jeans, camiseta e sandália rasteira, apesar do mau tempo. Ele, com aquela obesidade típica dos homens que se consideram grandes, usava jeans e camisa pólo listrada. De perfil, eu conseguia ver que ele tinha aparelho nos dentes e um rádio preso no cinto.

Corriam cinco minutos da palestra e eu não parava de me surpreender. Primeiro com a fluência do apresentador e depois com a resposta que eles deram quando foram perguntados há quantos anos estavam casados: 7! Eles pareciam tão jovens!! Ou será que eu estou mesmo tão velha. Fiquei imaginando se eles estavam lá como pais ou padrinhos. E, de repente, me dei conta que não era única que prestava atenção nos dois. O sujeito que dava a palestra se voltou, novamente , para eles e comentou que com certeza o início do namoro ele devia mimá-la com flores e bombons. A intenção era mostrar que o amor é mais que um sentimento, mas um conjunto de atitudes. Ela devolveu dizendo que ganhava flores e bombons até hoje, enquanto ele concordava com a cabeça.

Ele voltou a concordar com cabeça ainda com mais entusiasmo quando entramos no tema reciprocidade do afeto. Assim como o apresentador, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio na cintura, também achava que todo relacionamento está fadado ao fracasso quando esperamos que o outro nos faça feliz. Que o grande lance é justamente cuidar do bem-estar do outro, seja marido, mulher, filho, irmão ou amigo. Nesse instante fiz a fantasia de que ele, realmente, tratava bem da mulher.

Cantamos, rezamos, nos comportamos todos muito bem, tanto que mantive a minha atenção no palco, longe da plateia. No final da noite, algumas considerações sobre o traje apropriado para o batismo. Crianças de branco, homens de bermuda nem pensar. Para as mulheres, muitas recomendações e uma justificava, no mínimo, esquisita: devem evitar excessos para não distrair o padre. Isso mesmo, o padre!!! Na sequencia, o marido da moça de corpo bonito, o rapaz do rádio no cinto, comentou: “se o padre olhar para você eu cubro ele de porrada!!”
Acontece: por mais que a gente goste de assumidamente de prestar atenção na conversa dos outros, algumas histórias roubam a nossa atenção. Não faltava muito para eu descer do ônibus. O trânsito estava tranquilo e não tinha como deixar de ouvir o diálogo entre o motorista e uma passageira lá no primeiro banco. Na verdade, um monólogo porque a senhora não abriu a boca desde que ele mandou: "Fui casado durante onze anos e meu casamento acabou, de repente, só porque ela descobriu que eu tinha um filho de nove anos."
Quem ficaria blasé diante de uma afirmação dessas? Cheguei a me preocupar se daria para ouvir mais um pouquinho da história antes de o meu ponto chegar. Felizmente, uma obra parou o tráfego e nós dois ganhamos tempo: ele para desabafar e eu pra conhecer o desfecho da situação. E sabe como a mulher, a quem ele chamava de esposa, ficou sabendo de tudo? A filha chegou em casa e mandou: "mãe, um garoto lá da escola disse que é meu irmão." Depois desse clímax, perdi o fio-da-meada e só deu para recuperar na parte em que safada da outra quis matricular o menino no mesmo colégio só para sacaneá-lo.
Ela gostava disso. Volta e meia, fazia questão de passar em frente ao bar onde ele ia tomar um chopinho com a mulher. Todos moravam perto e sempre que se encontravam ele conseguia segurar a onda, fingir que não via, dava um jeito. E ela, apesar de olhar, nunca teve coragem de chegar perto ou puxar assunto. O sinal parecia quebrado. Ninguém se mexia e deu para saber que não teve jeito para salvar o casamento.
A mulher arrumou as coisas dele e o pôs para fora de casa entre o Natal e o Ano Novo. Era aniversário dela e a desnaturada nem levou isso em conta. Como pode? Ele foi para casa da mãe e está lá até hoje. Seis meses se passaram. Ele tem uma namorada que mora sozinha e já o convidou para viverem juntos. "Ela é solteira e tem casa própria, mas acho melhor não". Ele nem espera a passageira perguntar por que não se muda. "Na casa da minha mãe é aquela coisa, né? Ela não deixa que pague nada, tenho sempre roupa lavada e passada e aquele copo de coca-cola geladinho na hora do almoço."