Por favor, você já é terceira atendente com quem eu falo, eu gostaria de cancelar a minha assinatura. Não quero saber de vantagens, não quero serviço de atendimento ao cliente, eu quero só cancelar. Eu vou me mudar de cidade. Talvez eu saia do Brasil. Enfim, não quero mais. É tão difícil assim entender?
Meu nome é Fulana de Tal. Como disse, essa é a terceira vez que repito isso só para essa empresa de telefonia fixa. Já sei: agora você quer o meu CPF. Gente, por que eu tive que digitar o número da minha linha antes? O sistema não direciona para o nosso cadastro? Tudo bem, você não precisa me explicar. Você não sabe me explicar.
Eu também não sei explicar. Só não queira saber o nome do meu pai, tá? (Risos). Estou falando sério. Não sei nem mais se posso ler o nome que está escrito na minha carteira de motorista. Na minha certidão de nascimento ou de batismo. O meu pai, o cara que a gente achava que era meu pai, não quer mais ser o meu pai. Quero dizer, ele também não é mesmo o meu pai. Ah, tenho certeza que você não vai desligar depois disso. Você não vai querer saber o fim dessa história?
Só que eu não imagino onde essa coisa toda vai dar. Nem como começou. Bem, o começo dá para pensar, né? Minha mãe transou com alguém, ficou grávida. Eu nasci, cresci, a gente foi uma família. Até que, há uns dois anos, eles se separaram. Para falar a verdade, achei normal. Aconteceu com quase todos os meus amigos. Eles, a minha mãe e esse que era o meu pai, são pessoas legais mas não sei se tinham muito a ver. Tenho certeza que os casamentos não foram feitos para durar. Nunca namorei ninguém por mais de um ano e meio.
Acho que fiquei até aliviada quando eles se separaram. Tinha a impressão de que estavam juntos por minha causa. (Risos). Quanta bobagem. Eles se separaram porque ele estava namorando uma mulher quase da minha idade!! A minha mãe, claro, ficou péssima e quis arrancar as calças do meu pai. Eu nem liguei. Ou melhor, cheguei a reconhecer que meu pai parecia mais feliz, que a namorada dele era legal, etc.
Mesmo assim, me assustei com a rapidez com que os dois se casaram. Homem não fica sozinho. A minha mãe também ficou bem. Começou a sair com uns caras. Mas acho que continuava com raiva do meu pai. Eles sempre brigavam por causa da grana. E eu o defendia porque sei que ela não precisa de dinheiro. Nunca precisou.
Bem, ele casou e a nova mulher queria um filho. Achei esquisito ter um irmãozinho quando eu já devia pensar em ser mãe, mas não posso dizer que me pegou de surpresa. Até porque a ideia não é assim tão esquisita. Por causa da idade do meu pai e acho que da presa da mulher também, eles procuraram essas clínicas de reprodução assistida. Testa daqui, testa dali, descobriram que o meu pai é estéril, quem não tem a menor chance de ter filhos! Que tal?
Ele ficou com raiva de tudo, de mim. Não quer me ver. Disse que não tem mais filha, que foi traído por todo mundo durante anos. Pediu apartamento, carro, tudo de volta. O que eu faço? Vou devolver. Acho que tenho que fazer isso. Mas e o resto? E as memórias? E o meu pai? E o afeto? O que eu faço com isso? Não consigo devolver. Será que ele também faz questão?
Meu nome é Fulana de Tal. Como disse, essa é a terceira vez que repito isso só para essa empresa de telefonia fixa. Já sei: agora você quer o meu CPF. Gente, por que eu tive que digitar o número da minha linha antes? O sistema não direciona para o nosso cadastro? Tudo bem, você não precisa me explicar. Você não sabe me explicar.
Eu também não sei explicar. Só não queira saber o nome do meu pai, tá? (Risos). Estou falando sério. Não sei nem mais se posso ler o nome que está escrito na minha carteira de motorista. Na minha certidão de nascimento ou de batismo. O meu pai, o cara que a gente achava que era meu pai, não quer mais ser o meu pai. Quero dizer, ele também não é mesmo o meu pai. Ah, tenho certeza que você não vai desligar depois disso. Você não vai querer saber o fim dessa história?
Só que eu não imagino onde essa coisa toda vai dar. Nem como começou. Bem, o começo dá para pensar, né? Minha mãe transou com alguém, ficou grávida. Eu nasci, cresci, a gente foi uma família. Até que, há uns dois anos, eles se separaram. Para falar a verdade, achei normal. Aconteceu com quase todos os meus amigos. Eles, a minha mãe e esse que era o meu pai, são pessoas legais mas não sei se tinham muito a ver. Tenho certeza que os casamentos não foram feitos para durar. Nunca namorei ninguém por mais de um ano e meio.
Acho que fiquei até aliviada quando eles se separaram. Tinha a impressão de que estavam juntos por minha causa. (Risos). Quanta bobagem. Eles se separaram porque ele estava namorando uma mulher quase da minha idade!! A minha mãe, claro, ficou péssima e quis arrancar as calças do meu pai. Eu nem liguei. Ou melhor, cheguei a reconhecer que meu pai parecia mais feliz, que a namorada dele era legal, etc.
Mesmo assim, me assustei com a rapidez com que os dois se casaram. Homem não fica sozinho. A minha mãe também ficou bem. Começou a sair com uns caras. Mas acho que continuava com raiva do meu pai. Eles sempre brigavam por causa da grana. E eu o defendia porque sei que ela não precisa de dinheiro. Nunca precisou.
Bem, ele casou e a nova mulher queria um filho. Achei esquisito ter um irmãozinho quando eu já devia pensar em ser mãe, mas não posso dizer que me pegou de surpresa. Até porque a ideia não é assim tão esquisita. Por causa da idade do meu pai e acho que da presa da mulher também, eles procuraram essas clínicas de reprodução assistida. Testa daqui, testa dali, descobriram que o meu pai é estéril, quem não tem a menor chance de ter filhos! Que tal?
Ele ficou com raiva de tudo, de mim. Não quer me ver. Disse que não tem mais filha, que foi traído por todo mundo durante anos. Pediu apartamento, carro, tudo de volta. O que eu faço? Vou devolver. Acho que tenho que fazer isso. Mas e o resto? E as memórias? E o meu pai? E o afeto? O que eu faço com isso? Não consigo devolver. Será que ele também faz questão?