domingo, 29 de setembro de 2013

O começo do fim

"Você como quase todo mundo quer saber como aconteceu? Como começou o fim da nossa história?  É isso?  E você acha que eu sei? Num esforço, hoje, me lembro de um dia em que fomos juntos à academia e, intencionalmente, evitei que as pessoas percebessem que a gente era um casal. Principalmente, uma menina com quem eu sempre conversava sobre seriados de tevê e séries de musculação. Eu disse 'uma menina'. Você, como sempre, linda, simpática, gentil. Senti uma vergonha. Uma culpa.  Nunca vou te contar isso. Mas a situação -- com a menina e tudo -- veio à minha cabeça enquanto você gritava."

Fim de tarde

"Praia, fim de tarde, pôr-do-sol, véspera de primavera, aquela coisa toda. Recebe um torpedo com dois ícones: avião e carinha com beijinho. Lembra ter lido não sabe onde que, na hora de voar, a gente pensa em quem importa. Fica mais feliz, faz as contas e se apressa. De ponte-área, ele deve levar menos tempo para chegar em casa do que ela de bicicleta."

sábado, 28 de setembro de 2013

Glória

 Glória.  A Glória é gostosa. A minha mulher está me perguntando isso há um tempão e eu, tentando desconversar para não dar merda. Tudo bem. Ela não é uma Natalie Portman, nem uma Juliana Paes ou uma Panicat. Mas é bem gostosa. Por que será que as mulheres não descansam enquanto a gente não diz a verdade? Sim.  A Glória é gostosa e nem por isso eu tenho vontade de ir para cama com ela. Bem. Não sei. Ela é minha amiga de infância. Durante anos, fomos grudados. Eu dormia na casa dela depois de estudar e até nas férias. Tudo bem.

 Naquela época, eu não tinha nem pentelho e a Glória penava para manter a média em Desenho.  Éramos os melhores amigos que um garoto e uma garota podiam ser. Eu me lembro que ela era bem mais alta do que eu e apaixonada por um menino da nossa turma. Nem sei se os dois chegaram a ter alguma coisa.  Meus pais me tiraram da escola e a gente perdeu contato.

 Trocamos algumas carta e nada mais. Devo ter perdido o saco de procurar, não me lembro. Quero dizer, ela fazia mais força do que eu. Há uns quatro anos, a gente se viu no Facebook e foi bacana. De todos os colegas que descobri nessas redes sociais, ela foi única que ficou. A única que valeu a pena. A que me deixou feliz de verdade. Nosso primeiro encontro, depois de quase vinte anos, foi bem legal. Caramba, a Glória um mulherão. Tinha um trabalho interessante e um segundo casamento. Ela me recebeu com carinho, me ouviu com atenção. Acho que até chorou, mas preferi fingir que não reparei. Quando uma mulher chora na minha frente, eu, geralmente, dou um beijo na boca.  E, neste caso, era melhor não.

 Trocamos torpedos sobre a emoção do reencontro. Gostei à beça. Comentei pouco em casa para não dar confusão. Mesmo assim fiz questão de dizer à Glória que estava bem casado e tinha dois filhos lindos. O meu casamento com a Vitória é bacana. Custei a casar. Custei a ter pentelho. Custei a fazer quase tudo na vida. Tive sorte de a Vitória ficar comigo. A gente se dá bem. E os com os gêmeos aprendi a ser pai. Tento ser um pai tão legal com o meu. Eu tive sorte na vida. Eu tenho sorte na vida.

 A Glória, eu acho, não teve muita sorte. Não sei. Depois daquele primeiro café, a gente trocou emails e se viu mais umas duas ou três vezes no Centro. Eu marcava, ela desmarcava. Estava sempre viajando, em reunião, etc. Um bom tempo depois, ela foi lá em casa. Apresentei Glória à Vitória. Engraçado, né? Só neste dia, a gente se tocou da coincidência dos nomes. As duas se deram bem. Ficaram amigas no Facebook e até organizaram uma festa de aniversário para mim alguns meses depois.

 Vitória e eu não fomos muito com a cara do namorado da Glória. Às vezes, ela chamava de marido, outras de namorado. Ele aparecia pouco. Não incomodava. E não durou muito a história. Eles se separaram e a gente nem ficou sabendo muito bem o motivo. A Glória deu uma sumida novamente. Mas não perdemos o contato.

 No começo do ano passado, ficamos mais próximos. De vez em quando, a gente se vê um fim de semana inteiro. Ela passa o dia lá em casa. Ou gente vai à praia, almoça na Serra. Os meninos adoram a tia Glória. Ela vem sempre sozinha. Comigo, conversa de trabalho, amigos, viagens, dinheiro. Procuro não me meter quando ela e Vitória começam a falar de homem. A Vitória sempre diz que devo apresentar alguém para ela. Eu fujo do assunto, digo que só conheço cara casado, roubada ou viado. E pior, é verdade. E nunca vi essa coisa de cupido dar certo.

 Sempre que a gente se despede da Glória, a Vitória começa: “você acha que a Glória está sozinha? Deve estar faltando muito homem? Por  que, puxa, uma mulher que nem ela. Você não acha ela gostosa?” E, por aí, vai. Eu mudo de assunto porque, realmente, não tenho opinião formada. Não me interesso. Acho normal. Vai ver ela tem alguém, mas não apresenta para gente.

 Um dia, caí na besteira de dizer, só para encerrar o assunto, que a Glória podia não gostar de sexo. Isso nunca tinha passado pela minha cabeça. Cara, uns dias depois, a gente estava transando e a Vitória veio me perguntar se eu achava mesmo que a Glória não ligava para o assunto ou se estava faltando homem no mercado.

 Domingo, a gente marcou de tomar café-da-manhã com a Glória. Eu odeio tomar café fora mas as mulheres adoram. Ela disse que ia. Eu estava torcendo para furar. Para cair a maior chuva e a gente ficar em casa: os meninos brincando com a Vitória e eu dormindo até mais tarde. Fomos para a Lagoa e a Glória apareceu lá: de short, top, cabelo molhado. Tinha acabado de fazer uma aula de stand up paddle.

 Ela sempre gostou de esportes e modismos.  Acho que mais de modismos do que esportes. Eu me lembro que era adorava patinar numa pista que tinha ali mesmo na Lagoa. Eu nunca subi nuns patins. Não sei por que estava com tanta implicância da minha amiga?  Eu gostava dela e cheguei a pensar se  deveria dar um toque de que ela estava um pouco coroa para aquela  roupa.

  A Vitória ficou fazendo mil perguntas sobre a novidade do stand up paddle.  Como se ela fosse fazer isso. A Glória descrevia, com a empolgação de sempre,  que estava adorando. Que o professor era uma graça, que fez alguns amigos. Eu já havia reparado que toda história dela tinha um homem:  um professor, um médico, um amigo, um massagista, um terapeuta. Mas, claro, não comentei com a Vitória.

 Entre eles os colegas da turma havia um casal "bem bacana". O problema era que o cara estava dando em cima dela. “Como assim?” A Vitória não deixou passar. “Ah, mais um homem casado para minha coleção”.  “Jura? Tem muito cara casado na sua vida, Glória?”

 “Uma amiga me diz que isso acontece porque eles têm certeza que eu não vou para frente da casa deles armar um barraco, contar para a família. Eu acho que homem não pode ver uma mulher sozinha. Pensam logo que a gente está à disposição", teorizou. Felizmente, elas me ignoravam.

 Mas eu estava mesmo ali. Um dos meninos chamou para sair e ver não sei o quê lá fora e eu não dei a mínima. “Quer que eu faça as contas?”, perguntou a Glória em tom de desabafo. “Um ex-namorado de anos que me manda emails dizendo que transou com a mulher pensando em mim. Eu me dou ao trabalho de responder. Gasto meu inglês mais polite para sugerir que, na verdade, não sou eu. São apenas fantasias. E sujeito manda a tréplica: eu me sentiria homenageado se alguém tivesse esse tipo de desejo em relação a mim.Tem esse cara da aula, que já falei. Um colega de trabalho, que a mulher acabou de se curar de um câncer e a gente sempre sai para jantar em grupo. Um que envia fotos horríveis pelo celular. O cara mais novo que vai casar este ano? Acho que se pensar melhor, lembro de mais algum...”

 “Se eu sair por aí dizendo que esses relacionamentos estão com problema, vão me chamar de mal-amada. Agora, é a solteira aqui que tem segurar as pontas. Isso é um saco. Tudo bem, sei que cada casamento é um pacto. Que teorias garantem que homens separam com mais facilidade sexo de envolvimento. Mas eu também separo numa boa, hein”, ela ri. Mas a Glória não está de brincadeira. É mesmo um desabafo. A Vitória se cala e eu continuo fingindo que não estou aí.

 “O que mais me incomoda é quando eu conheço a mulher. Sei lá. Tenho a sensação de que o conflito ético passa a ser meu." "Você não transa com esses caras?", pergunto sem pensar e me arrependo na hora. Ela faz um movimento com a cabeça. Fico em dúvida se é sim, não, ou uma tentativa de mudar de assunto. O que eu tenho com isso? Caretice achar que a minha amiga de infância está pegando geral? Melhor assim, não? Não!

 Eu não dou em cima das amigas da minha mulher. Eu sou fiel. Viagem não conta. Festa da firma e carnaval avulso também não, eu acho. Além do mais, não sei se a Vitória é uma santa. Nunca houve um acordo formal, mas a gente brinca 'não me conte e use camisinha'. Prefiro não pensar. E não vou pensar na Glória. Não vou julgá-la, eu me esforçava enquanto mantinha a atenção nas duas.

  “Será que eles acham que eu estou precisando demais? Será que as mulheres desses caras não gostam de sexo? Será que está faltando mulher nos casamentos? ” Ela não parava. Ainda bem que o tom de voz era baixo e os meninos não estavam nem aí para a história. “Ah, Glória, de repente, eles estão só sendo gentis.  A gente conhece um bando de homem que seduz o tempo inteiro por esporte: dão em cima de todo mundo. E, na hora, arregam”, alivia a minha mulher para o meu total espanto.

  “Afinal de contas, eles não estão apaixonados por mim. É a onda de que comer todas as mulheres do mundo. Só querem mesmo dar umazinha. Mas há momentos em que eu também quero e aí?” “Ah, Glória não devem faltar caras para transar com você. Não vai me dizer que você está sozinha? Você não me parece a perigo”, provocou a Vitória.  A Gloria tomou um ar e emendou: “Não estou apaixonada e não estou saindo com ninguém. De vez em quando, me encontro com um cara. A gente se conheceu há uns meses e, não sei explicar, não resisti. Para mim, ele parece ter sido sempre sedutor e. casado. Pelo menos, não conheço a mulher dele, nem a família. Tenho certeza que não vou me envolver. É a primeira vez que isso acontece.”

  Silêncio. Tive a impressão que, assim como eu, a minha mulher estava procurando qualquer coisa para continuar a conversa. Para deixar a minha amiga à vontade. De repente, ficamos com sensação de que a Glória havia feito aquela volta toda para nos contar que estava tendo um caso. Será? Será que eu preciso dizer alguma coisa? Para confortá-la? Para manter o ritmo da conversa que seja? Fiquei pensando no próximo gesto e nada.

 Já disse: não sou moralista. Mas também não acho legal ter amante, ser amante, essas coisas. Sempre penso como um sujeito dá conta de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Uma coisa é variar. Outra é você manter vidas paralelas. Quem tem um caso, se divide em duas rotinas. Meu pai teve uma amante. Lembro mais ou menos a história. Eu era pequeno.  Sempre ouvi falar desta história só que nunca dei atenção e, para ser sincero, nunca quis saber a respeito.

  O meu sogro também tem. Ou teve, pelo menos. Ele bebe um pouco mais, a gente fica sozinho, ele tenta puxar esse assunto. Aquela ladainha de respeitar a esposa e preservar a família, papo de necessidade de homem. Sarto fora.  Não preciso imaginar quais seriam as posições sexuais favoritas dele, nem muito menos aquilo que a minha sogra não admite fazer dentro das quatro linhas. Nossa, agora, eu estou viajando mesmo.

 Ainda queria prestar atenção na conversar da Glória. Como assim, ela tinha certeza que não ia se envolver? Papo de homem!!!Como fica aquela história de que elas querem carinho e a gente só pensa em transar? E os hormônios? O instinto reprodutivo? A necessidade atávica de preservar a espécie? De dormir agarradinho? Ou de receber um telefonema no dia seguinte? Ela não quer saber de nada disso?

 Assim como nós homens não somos todos iguais, as mulheres também não nasceram em série. A Vitória tem muitos amigos gays. A gente convive bastante com eles. E, cada vez menos, acredito em questões de gênero, como diziam as amigas feministas da minha mãe. Desisti de tentar entender as mulheres. Outra coisa que custou para acontecer na minha vida. Não sei por que a minha amiga Glória tem amante. Não sei se quero continuar prestando atenção nessa história.  Quero que ela seja feliz. Ela me parece bem. Ela me parece bem gostosa.

domingo, 7 de julho de 2013

A primeira prova que terminei sem completar. Ou, então, o primeiro treino de 11,75k depois de uma temporada de antibiótico, exames e repouso

  alguns dias, comentando no Facebook sobre meu estado de saúde, tremi com a pergunta do Diogo Mourão, da In press Media Guide, assessoria da Meia do Rio, "você vai correr no domingo?" Respondi que sim e, naquele momento, decidi participar de qualquer jeito.
 As perguntas dos amigos, as matérias e anúncios da prova, as variações de humor, o tendão do joelho direito magoado das duas meias que corri em 2013,  a calça 38 apertando na cintura, a entrevista com o neurologista sobre a importância de cumprir metas.  Questões que me atormentavam mas não era tudo.
Tudo mesmo era a angústia de passar um mês investigando um cisto no meu pescoço. Os exames que pediam mais investigação, a dobradinha anti-inflamatório&antibiótico, o cuidado dos professores em não me deixar treinar, o medo, a insônia. Estava difícil e tentava me convencer que, aos 46 anos, não precisava sofrer por não dar conta de três meias entre abril e julho. Afinal, o importante é ter saúde e sempre estive certa que corria, principalmente, para ter essa saúde.
Para não adoecer antes de os médicos fecharem o diagnóstico -- tudo indica que estou bem muito obrigada mas a confirmação só vem daqui a uma duas semanas -- e encarar com mais disposição um período de mudanças no trabalho, não deixei de ir à academia. Dava uma força na musculação e nas atividades de baixo impacto, enquanto acompanhava o treino dos colegas e me esquivava de perguntas sobre a corrida do dia 7. Até que esta semana, alguém sugeriu que eu largasse depois do início da prova, que aproveitasse a inscrição e fizesse o meu treino de fim de semana na orla e no Aterro.
Quando perguntei ao professor Rafael Kohler, da Life Consultoria, se podia fazer isso, ele brincou: "você chega ao fim, quebra a medalha e fica só com a metade."  Metade da medalha. Ideia esquisita até para quem se considera pouco competitiva, como eu. Ideia esquisita que foi sendo cultivada nos últimos dias.  Como assim sair cedo da cama no domingo para uma participação meia-boca? Companhia, eu já tinha. O professor Marcus Vinícius Mello Mattos, o Marquinhos, havia combinado de encontrar com uma aluna no meio do percurso, e me convidou a "largar"com ele no Leblon. Disse que ia, mas duvidei.
Ontem, último dia para retirada dos kits, achei que seria um mico não sair da Barra, como mandava o figurino e o regulamento. Quando entreguei minha carteira de identidade no guichê, a atendente fez um comentário que caiu como um desafio: "você é famosa Angélica Brum! Vejo seus nomes em muitas provas." Realmente, nos últimos anos, foram várias. Tantas que já estou perdendo as contas das meias. E, claro, também me culpo por ser pouco cuidadosa com as conquistas. Mas venho resolvendo isso na timeline, para desespero dos meus amigos virtuais.
 Deixei o Aterro com o kit na mão e a certeza de que ia correr 21k. Do princípio ao fim. E andaria se fosse o caso. Eu trabalho com palavras e tinha todos os argumentos para prosseguir e todos para desistir. Lá para as nove da noite, cheguei a mandar um torpedo para o Rafael, o meu treinador, perguntando se ele achava arriscado trocar os 8k, previsto para esse fim de semana, pela Meia. Sorte que ele não recebeu a mensagem e fui dormir com a decisão tomada.
O relógio tocou poucos minutos antes da largada oficial e sai para o meu treino na prova mais bonita do mundo num dia de cidade maravilhosa. Enquanto esperava a Ana, aluna do Marquinhos, via a corrida passar. E me surpreendi no exercício de imaginar como eu estaria àquela altura. Fui reconhecida por algumas pessoas, como o Iúri Totti e o Eduardo, amigo de faculdade do meu irmão.  Reconheci outras, como a Marcella Blume. Eu me identifiquei com todos. Entendia, perfeitamente, o que havia levado aqueles atletas a acordarem tão cedo.
Comecei e, como é de costume, dizia para mim mesma que não precisava ir até o fim, que não  há necessidade de provar nada para ninguém, que a próxima será melhor, enfim, toda a ladainha que desfio quando corro 5, 8,10, 16, ou 21k. E, mais uma vez, o diabinho da preguiça perdeu. Atravessei o pórtico de chegada depois de 11,75 k. Mais da metade da Meia. Como estava com número de inscrição, ganhei a medalha.  Não dava para pendurar no pescoço, mas também não tinha como quebrá-la ao meio. A alternativa foi guardar no bolso do short para, depois, decidir: afinal, esta foi a primeira prova que terminei sem completar. Ou, então, o primeiro treino de 11,75k depois de uma temporada de antibiótico, exames, repouso e um certo friozinho na barriga?

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

No solo


Geneticistas afirmam que não são poucos os casos de pais que criam filhos de outros homens acreditando que estão educando seus herdeiros genéticos. Ou seja, foram traídos pelas mulheres e não sabem. A partir desta constatação reuni alguns dados e tentei pensar em algumas situações, sempre lembrando que a vida real dá de lavada na ficção, como descrevem os cientistas. Ontem, postei a história do CANCELAMENTO. Hoje, vamos de

NO SOLO

"Senhores passageiros, aqui fala o chefe da cabine, estamos sem previsão de decolagem devido ao congestionamento na pista. Por favor, mantenham-se sentados com os cintos de segurança afivelados. Daqui a pouco, retornaremos com mais informações".

Que droga essa  conversa de manter o celular desligado. Todo mundo sabe que não tem perigo. E, assim, amarrado, não posso mandar uma mensagem avisando que vou me atrasar. Não dá para ver emails, entrar na internet. E o comandante não vai falar nada? Sempre espero o comandante. É a parte mais nervosa de qualquer voo. Acho que, um dia, vou entrar no avião e ouvir:  "o comandante Vinícius em nome desta tripulação..." Comandante Vinícius, meu filho. Meu terceiro filho. Meu filho com a Valéria. Meu filho que a Valéria nunca me apresentou.

 Há algum tempo vi uma foto dele no Facebook da mãe: a mesma testa da minha família. Que coisa!  Outro dia mesmo, no motel, contei que tinha mais um filho para a Amanda. Nem sei muito bem qual foi o motivo. Eu me sinto à vontade com ela. Ela diz que gosta das minhas histórias e, desse jeito, a gente se mantém ocupado entre uma transa e outra.  A Ana e os meninos não sabem. Só os meus dois irmãos estão por dentro de tudo.  Agora, a Amanda também sabe.

O meu filho mais novo devia estar com uns seis anos e eu me apaixonei pela Valéria. Ela era linda, enlouqueci e foi duro conquistá-la porque ela também era casada. Ficamos juntos por uns meses. Naquela época, não se usava camisinha. Amanda e eu temos dificuldade com a camisinha. Eu acho que não vou dar conta. Só que a gostosa da Amanda não sabe que há vinte e poucos anos isso não era problema para mim.

 Gostosa, curiosa e metida, Amanda insistiu nos detalhes. Até hoje eu nunca perguntei se ela tem namorado, mas não escondo nada que ela me pergunte.  Eu garanti que, simplesmente, acreditei, quando a Valéria disse que estava grávida e que o filho era meu. A Valéria comentou que estava sem transar com o marido. E, hoje, basta olhar para a testa do menino!  Em seguida, continuei a história, o cara foi transferido e os dois se mudaram para o Chile antes do nascimento da criança. Nunca mais nos falamos. Quem me dava notícias deles era uma colega do trabalho, que se correspondia com ela.

Sei lá se tenho outros filhos. Depois da morte do meu pai descobri um irmão mais velho que todo mundo lá de casa, que foi devidamente confirmando num teste de DNA.  Mas, com toda certeza, existe um comandante Vinícius voando por aí com a minha herança genética. Com a minha testa.

"Boa tarde, senhores passageiros, aqui fala o comandante Ícaro, dentro de alguns instantes vamos iniciar nossos procedimentos de decolagem."

Ainda não foi dessa vez. Quem sabe na volta para casa?

Cancelamento


Por favor, você já é terceira atendente com quem eu falo, eu gostaria de cancelar a minha assinatura. Não quero saber de vantagens, não quero serviço de atendimento ao cliente, eu quero só cancelar. Eu vou me mudar de cidade. Talvez eu saia do Brasil. Enfim, não quero mais. É tão difícil assim entender?

Meu nome é Fulana de Tal. Como disse, essa é a terceira vez que repito isso só para essa empresa de telefonia fixa. Já sei: agora você quer o meu CPF. Gente, por que eu tive que digitar o número da minha linha antes? O sistema não direciona para o nosso cadastro? Tudo bem, você não precisa me explicar. Você não sabe me explicar.

Eu também não sei explicar. Só não queira saber o nome do meu pai, tá? (Risos). Estou falando sério. Não sei nem mais se posso ler o nome que está escrito na minha carteira de motorista. Na minha certidão de nascimento ou de batismo. O meu pai, o cara que a gente achava que era meu pai, não quer mais ser o meu pai. Quero dizer, ele também não é mesmo o meu pai. Ah, tenho certeza que você não vai desligar depois disso. Você não vai querer saber o fim dessa história?

Só que eu não imagino onde essa coisa toda vai dar. Nem como começou. Bem, o começo dá para pensar, né? Minha mãe transou com alguém, ficou grávida. Eu nasci, cresci, a gente foi uma família. Até que, há uns dois anos, eles se separaram. Para falar a verdade, achei normal. Aconteceu com quase todos os meus amigos. Eles, a minha mãe e esse que era o meu pai, são pessoas legais mas não sei se tinham muito a ver. Tenho certeza que os casamentos não foram feitos para durar. Nunca namorei ninguém por mais de um ano e meio.

Acho que fiquei até aliviada quando eles se separaram. Tinha a impressão de que estavam juntos por minha causa. (Risos). Quanta bobagem. Eles se separaram porque ele estava namorando uma mulher quase da minha idade!! A minha mãe, claro, ficou péssima e quis arrancar as calças do meu pai. Eu nem liguei. Ou melhor, cheguei a reconhecer que meu pai parecia mais feliz, que a namorada dele era legal, etc.

Mesmo assim, me assustei com a rapidez com que os dois se casaram. Homem não fica sozinho. A minha mãe também ficou bem. Começou a sair com uns caras. Mas acho que continuava com raiva do meu pai. Eles sempre brigavam por causa da grana. E eu o defendia porque sei que ela não precisa de dinheiro. Nunca precisou.

Bem, ele casou e a nova mulher queria um filho. Achei esquisito ter um irmãozinho quando eu já devia pensar em ser mãe, mas não posso dizer que me pegou de surpresa. Até porque a ideia não é assim tão esquisita. Por causa da idade do meu pai e acho que da presa da mulher também, eles procuraram essas clínicas de reprodução assistida. Testa daqui, testa dali, descobriram que o meu pai é estéril, quem não tem a menor chance de ter filhos! Que tal?

Ele ficou com raiva de tudo, de mim. Não quer me ver. Disse que não tem mais filha, que foi traído por todo mundo durante anos. Pediu apartamento, carro, tudo de volta. O que eu faço? Vou devolver. Acho que tenho que fazer isso. Mas e o resto? E as memórias? E o meu pai? E o afeto? O que eu faço com isso? Não consigo devolver. Será que ele também faz questão?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Já que estamos falando da vida do Niemeyer

Uma das minhas primeiras matérias de capa do Segundo Caderno foi o lançamento da pedra fundamental do MAC, em Niterói. Saímos do Globo, fomos até escritório do Niemeyer em Copabacana. Depois de dar um chá-de-cadeira na equipe -- naquele tempo: fotógrafo, motorista e repórter, ele foi praticamente mudo durante o trajeto. E daí, eu era uma foca -- hoje, essa expressão faz tanto sentido, ia "dar" um
a primeira página?!!! Tinha lido toooda a pesquisa e ia no carro pensando em lead, título, etc. Ao chegar no terreno, a surpresa! Aquele senhor caladão, com cheiro de cigarrilha, se transformou: passou a andar rápido de um lado para o outro, a fazer perguntas sobre o acervo. Juro, uma empolgação que deixou a foca cansada.
Nem lembro se a matéria ficou boa. Quem me conhece sabe que não transformo todo mundo que morre em herói e, mais, evito ao máximo a síndrome de Estocolmo em relação ao entrevistado mesmo quando estou diante de um gênio. Tantos anos depois seria uma recaída daquelas. É só mesmo mais uma reflexão sobre o privilégio de se trabalhar no que se gosta. Talvez essa seja uma das fórmulas da longevidade. Só mais uma reflexão. Como não sei desenhar, escrevo.