sábado, 26 de junho de 2010

Acontece: por mais que a gente goste de assumidamente de prestar atenção na conversa dos outros, algumas histórias roubam a nossa atenção. Não faltava muito para eu descer do ônibus. O trânsito estava tranquilo e não tinha como deixar de ouvir o diálogo entre o motorista e uma passageira lá no primeiro banco. Na verdade, um monólogo porque a senhora não abriu a boca desde que ele mandou: "Fui casado durante onze anos e meu casamento acabou, de repente, só porque ela descobriu que eu tinha um filho de nove anos."
Quem ficaria blasé diante de uma afirmação dessas? Cheguei a me preocupar se daria para ouvir mais um pouquinho da história antes de o meu ponto chegar. Felizmente, uma obra parou o tráfego e nós dois ganhamos tempo: ele para desabafar e eu pra conhecer o desfecho da situação. E sabe como a mulher, a quem ele chamava de esposa, ficou sabendo de tudo? A filha chegou em casa e mandou: "mãe, um garoto lá da escola disse que é meu irmão." Depois desse clímax, perdi o fio-da-meada e só deu para recuperar na parte em que safada da outra quis matricular o menino no mesmo colégio só para sacaneá-lo.
Ela gostava disso. Volta e meia, fazia questão de passar em frente ao bar onde ele ia tomar um chopinho com a mulher. Todos moravam perto e sempre que se encontravam ele conseguia segurar a onda, fingir que não via, dava um jeito. E ela, apesar de olhar, nunca teve coragem de chegar perto ou puxar assunto. O sinal parecia quebrado. Ninguém se mexia e deu para saber que não teve jeito para salvar o casamento.
A mulher arrumou as coisas dele e o pôs para fora de casa entre o Natal e o Ano Novo. Era aniversário dela e a desnaturada nem levou isso em conta. Como pode? Ele foi para casa da mãe e está lá até hoje. Seis meses se passaram. Ele tem uma namorada que mora sozinha e já o convidou para viverem juntos. "Ela é solteira e tem casa própria, mas acho melhor não". Ele nem espera a passageira perguntar por que não se muda. "Na casa da minha mãe é aquela coisa, né? Ela não deixa que pague nada, tenho sempre roupa lavada e passada e aquele copo de coca-cola geladinho na hora do almoço."

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