sábado, 26 de junho de 2010

Pizza

(depoimento colhido no domingo, 15 de junho de 2003, 23:16:48, que entra no blog à guisa de exercício. outros textos antigos devem ser postados para que as histórias não se percam.)


"Vamos combinar que sexo por sexo não é o fim do mundo. A verdadeira negação do amor – próprio – é a transa acidental. Por carência ou por falta do que fazer mesmo. São essas situações que me fazem lembrar do dia em que, depois de ouvir os detalhes de um dos meus piores encontros, o interlocutor virou e me disse: “entendi, você preferia ter acordado com uma caixa de pizza ao seu lado?” Dependendo de quantas fatias houvesse na embalagem, sim! A ressaca moral pode ser mais devastadora do que a culpa de uma orgia gastronômica de má qualidade.
Voltemos à situação “seria melhor ter devorado seis fatias de calabresa”. Estava na cara que, se eu não tomasse nenhuma atitude, ia rolar alguma coisa. Ele era o tipo do sujeito que se achava irresistível e me cravou de elogios e olhares o dia inteiro. Sem contar naquela mãozinha apertando o meu ombro, ao anunciar para toda a mesa sua mais recente constatação. “Ela é mesmo inteligente!” “Ela “ era eu que merecia o elogio por observar que os mauis de foto eram da Ilha de Páscoa. Uau!!!
O fato é que, como ensinava Renan Miranda, aquela alma queria reza. E, por comodismo, carência, preguiça ou curiosidade, não ignorei as preces. No bar do hotel, depois que todos os colegas haviam ido embora, ficamos praticamente sozinhos. Ao me ver acuada, lancei a minha estratégia de sempre, meu plano de fuga. “Vou dormir...O dia foi puxado e estou até com um pouco de dor nas costas”, justifiquei me sentindo a dona da situação. Por que cargas d’àgua fui falar da minha escoliose toráxica grave? Profissional, ele não perdeu a oportunidade, virou para mim e garantiu que era craque em massagem. Eu me lembro que cheguei a desconversar por alguns instantes. Quando, finalmente, tomei coragem, me levantei, percebi que não havia bebido tanto assim e me despedi com a maior educação. Uma intensa jornada de trabalho nos esperava no dia de seguinte. “Até manhã, então?”, encerrei. “Eu subo com você”, emendou. Juro que entendi que ele iria para o quarto dele. Pelo menos até o instante em que o elevador parou no meu andar e ele me seguiu.
Mas, o que há demais em duas pessoas adultas conversando sozinhas dentro de um quarto de hotel? Mania minha de erotizar tudo...Pois bem, no que abri a porta, levei-o direto para a varanda, vencendo o obstáculo daquela cama, tal qual uma pedra, no meio do caminho. Ao fingir a maior naturalidade, danei a falar – sempre faço isso nos momentos de aproximação/tensão. Lépida que só, elogiei a noite, as estrelas, o clima, até que senti ele me abraçando por trás e beijando a minha nuca. Fiquei muda, estática. Ai, meu Deus!! Não quero nada com esse cara, pensava. Foi então que ouvi uma das frases mais marcantes e definitivas da terceira década da minha vida . “Sabe que você é uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci.” Recapitulando, aquele homem estava no meu quarto, me agarrando e dissertando sobre a minha capacidade intelectual...Como pode haver alguém tão burro!!! Será que aquela criatura não tem a mais pálida idéia de que, àquela altura do campeonato, o elogio mais lisonjeiro que uma mulher espera ouvir é “gostosa”? De qualquer maneira devo agradecê-lo. De volta ao Rio, me matriculei numa academia de ginástica e me tornei uma espécie de envangélica da malhação.
Agora, voltemos à varanda, onde para completar, nevava...Carente, bêbada, louca, dei uma risadinha cretina e permiti que ele continuasse como dono da situação. E, de fato, ele era. Eu estava ocupada demais me concentrando em ficar parada. A verdade é que me sentia péssima, tonta, com dor nas costas, pernas com depilação vencida e inchada de TPM. Por puro incômodo e incapacidade de jogá-lo longe, virei e encarei o beijo que, por sinal, não foi ruim. Não foi mesmo. Pela primeira vez, estava começando a gostar da história...De repente, me lembrei do jeito simpático que ele se dirigia a mim e notei que ele ficava bem com aquela camisa branca àgnes b.
O moço tinha estilo e pronto. Não vou negar. O problema, devidamente, ressaltado nas primeiras linhas desse texto, estava na falta de tesão. Ou melhor, na minha incapacidade de dizer: “não, obrigada!”. Bem, os beijos – meu ponto-fraco – foram ficando melhores e, de repente, ele se lembrou da massagem. Vestida, deitada na cama, cadê que eu conseguia relaxar com as mãos dele deslizando entre o meu pescoço e as minhas costas. Não sou de ferro! Éramos dois adultos dentro de um quarto, eu já disse. Empolgadíssimos, começamos a nos abraçar.
Corte para ele pedindo um tempo para pendurar a camisa nas costas da cadeira. Não acreditei!!! Aquele profissional da sedução se preocupava em dobrar a roupa!!! Tratava-se do último sinal de que aquele encontro não daria certo, uma dica tão clara quanto aquela história de inteligência. A catástrofe estava anunciada e eu não queria ver. E ninguém, com certeza, vai querer. Poucos minutos depois, aliás, pouquíssimos, ele já estava nos trinques com sua camisa deslumbrante para dentro da calça maravilhosa. Levei o moço à porta, tomei um bom banho e dormi.
Durante o café da manhã, um dos nossos colegas soltou a indefectivel afirmação “é...parece que a noite foi boa”. De óculos escuros, dentro do restaurante, nos dois, sem nos encararmos, nos apressamos em esclarecer aquela observação idiota. “Dancei até de madrugada”, disse ele, entretido com a cumbuca de corn flakes. Antes que terminasse a frase, interrompi. “Que disposição a sua! Acho que bebi demais e dormi a noite inteira como um anjo”. Só me faltou contar que havia sonhado com uma pizza calabresa tamanho gigante.
"


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