Não sei se foi a realização do sonho olímpico, a certeza de que era um dia de cabelo bom, de figurino correto. Tomei coragem e corri atrás de um prejuízo de mais de sete anos. Procurei um caso mal-resolvido. Uma paixão platônica bruscamente interrompida, que não fazia o menor sentido ser reavivada mas que também não dava para fingir que nunca existira. Pelo menos, para mim, não dava. Felizmente fui bem recebida.
E os dois, que se quiseram tanto sem jamais trocarem um olhar, estavam lá, frente-à-frente. Não houve constrangimentos, não faltou assunto e falaram do que sentiram, do rompimento abrupto, que, hoje ela reconhecia, não poderia mesmo ter sido evitado. Não foi para deixá-lo à vontade que ela admitiu que, anos depois, viveu o mesmo papel da mulher dele. Infelizmente, lamentou, o marido dela não fora tão elegante.
Sem desviar o olhar -- ela fazia questão de acompanhá-lo --, ele reafirmou o ciúmes da mulher. Em nenhum momento, a chamou de louca, destemperada, ou qualquer coisa parecida. "O pai dela foi um galinha e talvez por isso ela tenha um sexto sentido tão aguçado", justicava para dizer, novamente, mas pela primeira vez cara-a-cara, que não estava disposto a magoar a mulher por causa de uma relação platônica.
Ela prestava atenção a cada palavra. Ele parecia tão cansado e não recusou o convite. Depois de tantos anos. Ela sentia um orgulho danado de ter tomado a iniciativa. Nem importava que estivessem em local tão público. Os dois não tinham nada a esconder. Deu até para ela reclamar de uma mancada que ele cometera anos atrás ao misturar a história dos dois com questões profissionais.
Como ela se sentia segura. Como ele parecia doce. Sem mistérios. Retomaram a intimidade do tempo da troca de mensagem. Um deixou claro por outro que o episódio deixou marcas. E, felizmente, não tem nada demais. De lá para cá, ela casou, separou, casou e separou de novo. Hoje, tem um buraco no peito. Ele continuou fiel ao amor da juventude e voltou para o Brasil. E, agora, vive a expectativa de encaminhar os filhos.
Antes, ela vivia na América e ele na Europa. Hoje, um mora na Urca e o outro no Humaitá. Um oceano ainda os separa. A diferença é a troca de olhares. A possibilidade do abraço.
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