quinta-feira, 22 de julho de 2010

Ouvi de Stella Florence (http://itodas.uol.com.br/amor-e-sexo/quando-doi-tudo/)

Aquela consulta havia sido marcada por sua irmã e foi apenas por conta de sua insistência que ela estava ali. Os apelos e queixumes da família já eram tão constantes que uma visita ao médico traria menos transtornos.
Como ela poderia explicar a eles? Algumas coisas são tão óbvias que falar sobre elas se torna penoso ou ridículo. Ainda assim, ao que parece, ela precisaria não apenas explicar o óbvio, como também embasá-lo com um diagnóstico médico, diagnóstico coroado por um remedinho tarja preta de preferência.
As revistas do consultório traziam na capa casais que não estavam mais juntos, grávidas que há muito haviam parido, famosos que caíram no esquecimento e cenas de novela das oito cujo enredo hoje se repetia com outros atores e outro título. Suas opções eram folhear aquelas revistas, observar os outros pacientes ou fechar os olhos, simulando um sono que nem de leve sentia. Porém, não foi preciso escolher: em alguns minutos ela foi chamada na sala 4.
Uma vez deitada na maca, o médico perguntou, forçando os dedos contra o peito dela:
— Onde dói?
Ela então franziu a testa, arreganhou os dentes e… desceu. Desceu vertiginosamente para dentro de si mesma.
“Onde dói?”, pensou. “Dói meu peito que permanece curvado em pranto. Doem meus ombros que não suportam o peso da saudade. Doem meus ouvidos secos de palavras carinhosas. Doem meus rins que não filtram a saliva amarga da solidão. Doem meus pés que não têm por quem caminhar. Dói meu sexo que não se abriu para o filho. Doem meus olhos que não encontram senão a casa vazia. Dói meu couro cabeludo que não recebe os unguentos do cafuné. Dói minha garganta congestionada de gritos não dados. Doem meus braços que se atrofiaram por não mais abraçarem meu homem. Dói minha língua na clausura eterna dos dentes. Dói meu estômago que não digere a ausência dele”.
— Dói tudo, doutor. Dói simplesmente tudo, porque meu corpo não é só essa carne óbvia em cuja massa dedos afundam procurando um nódulo, uma urticária, uma veia estourada. Dói tudo porque em tudo a alma se coloca e a alma, doutor, a alma sente sem analgésicos.
Mas é claro que eu sei que vai passar, não sou nenhuma ignorante dos mecanismos da vida para, mesmo sob essa dor doída de alma doente, me jogar de uma ponte ou tomar quarenta comprimidos de um tranquilizante qualquer. Sei que vai passar. Minha razão sabe que vai passar. Sei também que o único tratamento recomendado ao meu caso é o tempo. Sei de tudo isso, tudo isso me é claro, mas por enquanto, por favor, faça esta caridade, doutor: não pergunte onde dói.

*Stella Florence nasceu em 67, tem uma filha, 30 tatuagens e sete livros, entre eles “Hoje Acordei Gorda” e “32 – 32 anos, 32 homens, 32 tatuagens”. A mescla de humor e drama, além do verbo ácido, se tornou a marca registrada de sua literatura. Stella é tão alucinada por Gabriel García Márquez que sua cama (sim, sua cama!) tem o mesmo apelido do escritor colombiano: Gabo. Cada louco com sua mania… www.stellaflorence.com

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