Também não estou aqui para te culpar. Por mais que, às vezes, pense que você desejou partir tão cedo. Tão cedo para quem, cara-pálida. Tão cedo para quem ficou. Para quem cobriu a sua ausência com uma presença enorme. Você não estava aqui e eu te tornei gigante. Agora me vem a imagem da mãe do Woody Allen em "Crônicas de Nova York". Não tive o seu cheiro, o seu toque suave, os seus beijinhos, a atenção dos seus carinhos.
Em compensação tratei de carregá-lo comigo, enorme, irretocável, perfeito. Não dei ouvido aos seus deslizes, não me recordo de um momento de desamor ou sequer da sensação de ter sido deixada na mão. Como pode isso ser possível? Como pode ser tão clichê? Amanhã é véspera do meu aniversário. Vai ter festa. Quero correr cedo e preciso dormir. Antes disso, tenho que arrumar um lugar para você na minha vida. Uma saudade boa -- quero acreditar que isso exista, que me deixe seguir adiante. A gente sabe, eu travo, volta e meia, mas já fui longe e posso ir mais ainda. Eu não preciso de você. E não há motivo para cobrar do mundo, nem de você agora, o que eu imaginei que você me daria. Você não fez promessa alguma. Nunca. O seu legado está guardado. Ninguém tasca. Não há razão para esperar mais.
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