Hoje é minha última noite neste quarto. Foram pouco mais de dois anos. Minha renitente auto-piedade diria mais sofridos que felizes, será? Por alguns instantes, só consigo pensar na dor daqueles que não sabiam que estavam dormindo a sua última noite e em outros tantos que perderam quarto, sala, talher, toalha...tudo.
Matheus Cauê, de seis anos, não sai da minha cabeça. Depois de cantar num fôlego só um hit sertanejo, explica à repórter que a casa dele "explodiu de água". Ninguém me contou. Eu vi, eu ouvi essa declaração ene vezes, dezenas de repetições no material bruto, outras tantas na ilha de edição, na revisão. E, ainda, quando foi ao ar. "Minha casa explodiu de água".
Quis a vida, quis eu também que me tornasse uma daquelas pessoas que "já morou em tantas casas que nem se lembra mais". Alegres, inevitáveis, cobertas de expectativa ou tristeza, sempre tive o direito de fazer a minha mudança. De caminhão, na mala do carro, com pouco mais que a roupa do corpo, sabia que estava saindo e podia calcular o que esperar.
Talvez de tanto ouvir que a única coisa irremediável é a morte, tenho pensado mais nos sobreviventes dessa tragédia. Naqueles que perderam a vida e continuam vivos. Eu tenho tanta dificuldade em lidar com o imponderável. Posso espernear, engolir seco, ficar com olhos cheios d'água ou mesmo disfarçar bem. A verdade é uma só: não aceito quando faço tudo que está ao meu alcance e, pronto, o outro chega e carrega o destino para lá.
Que tal um desmoronamento? Uma explosão de água para voltar à imagem que descreve com precisão o que aconteceu semana passada em Teresópolis. Uma explosão. Um impacto capaz de dizimar a ordem e transformar tudo em terra arrasada. Não precisa ser fogo. Não precisa ser vento. O fenômeno se caracteriza pela imensa capacidade de destruição.
Pronto cheguei onde queria, fecho esse raciocínio e volto a falar de mim, a me colocar no centro como se eu tivesse grande importância. Não sei se aprendi uma lição. Ou melhor, se vou fixar o aprendizado. Diante do sofrimento de quem sobreviveu a um desastre, como aquele homem que sem ter o que fazer, devora livros infantis deitado no chão de um abrigo improvisado num estádio, não sei se me alegro com a minha vida.
Preciso de um novo vocabúlario. Quem sabe acertar o foco diante dos fatos...eu jurava que havia entrado aos pedaços nessa casa. Comecei o texto certa disso. Não era verdade. Amanhã vou sair daqui inteira, com a ajuda de um bocado de gente, apoiada nas minhas pernas com uma vaga noção do que me aguarda nos dias seguintes. Bem, hoje é a véspera do primeiro dia na casa nova. Melhor dormir.
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