domingo, 7 de julho de 2013

A primeira prova que terminei sem completar. Ou, então, o primeiro treino de 11,75k depois de uma temporada de antibiótico, exames e repouso

  alguns dias, comentando no Facebook sobre meu estado de saúde, tremi com a pergunta do Diogo Mourão, da In press Media Guide, assessoria da Meia do Rio, "você vai correr no domingo?" Respondi que sim e, naquele momento, decidi participar de qualquer jeito.
 As perguntas dos amigos, as matérias e anúncios da prova, as variações de humor, o tendão do joelho direito magoado das duas meias que corri em 2013,  a calça 38 apertando na cintura, a entrevista com o neurologista sobre a importância de cumprir metas.  Questões que me atormentavam mas não era tudo.
Tudo mesmo era a angústia de passar um mês investigando um cisto no meu pescoço. Os exames que pediam mais investigação, a dobradinha anti-inflamatório&antibiótico, o cuidado dos professores em não me deixar treinar, o medo, a insônia. Estava difícil e tentava me convencer que, aos 46 anos, não precisava sofrer por não dar conta de três meias entre abril e julho. Afinal, o importante é ter saúde e sempre estive certa que corria, principalmente, para ter essa saúde.
Para não adoecer antes de os médicos fecharem o diagnóstico -- tudo indica que estou bem muito obrigada mas a confirmação só vem daqui a uma duas semanas -- e encarar com mais disposição um período de mudanças no trabalho, não deixei de ir à academia. Dava uma força na musculação e nas atividades de baixo impacto, enquanto acompanhava o treino dos colegas e me esquivava de perguntas sobre a corrida do dia 7. Até que esta semana, alguém sugeriu que eu largasse depois do início da prova, que aproveitasse a inscrição e fizesse o meu treino de fim de semana na orla e no Aterro.
Quando perguntei ao professor Rafael Kohler, da Life Consultoria, se podia fazer isso, ele brincou: "você chega ao fim, quebra a medalha e fica só com a metade."  Metade da medalha. Ideia esquisita até para quem se considera pouco competitiva, como eu. Ideia esquisita que foi sendo cultivada nos últimos dias.  Como assim sair cedo da cama no domingo para uma participação meia-boca? Companhia, eu já tinha. O professor Marcus Vinícius Mello Mattos, o Marquinhos, havia combinado de encontrar com uma aluna no meio do percurso, e me convidou a "largar"com ele no Leblon. Disse que ia, mas duvidei.
Ontem, último dia para retirada dos kits, achei que seria um mico não sair da Barra, como mandava o figurino e o regulamento. Quando entreguei minha carteira de identidade no guichê, a atendente fez um comentário que caiu como um desafio: "você é famosa Angélica Brum! Vejo seus nomes em muitas provas." Realmente, nos últimos anos, foram várias. Tantas que já estou perdendo as contas das meias. E, claro, também me culpo por ser pouco cuidadosa com as conquistas. Mas venho resolvendo isso na timeline, para desespero dos meus amigos virtuais.
 Deixei o Aterro com o kit na mão e a certeza de que ia correr 21k. Do princípio ao fim. E andaria se fosse o caso. Eu trabalho com palavras e tinha todos os argumentos para prosseguir e todos para desistir. Lá para as nove da noite, cheguei a mandar um torpedo para o Rafael, o meu treinador, perguntando se ele achava arriscado trocar os 8k, previsto para esse fim de semana, pela Meia. Sorte que ele não recebeu a mensagem e fui dormir com a decisão tomada.
O relógio tocou poucos minutos antes da largada oficial e sai para o meu treino na prova mais bonita do mundo num dia de cidade maravilhosa. Enquanto esperava a Ana, aluna do Marquinhos, via a corrida passar. E me surpreendi no exercício de imaginar como eu estaria àquela altura. Fui reconhecida por algumas pessoas, como o Iúri Totti e o Eduardo, amigo de faculdade do meu irmão.  Reconheci outras, como a Marcella Blume. Eu me identifiquei com todos. Entendia, perfeitamente, o que havia levado aqueles atletas a acordarem tão cedo.
Comecei e, como é de costume, dizia para mim mesma que não precisava ir até o fim, que não  há necessidade de provar nada para ninguém, que a próxima será melhor, enfim, toda a ladainha que desfio quando corro 5, 8,10, 16, ou 21k. E, mais uma vez, o diabinho da preguiça perdeu. Atravessei o pórtico de chegada depois de 11,75 k. Mais da metade da Meia. Como estava com número de inscrição, ganhei a medalha.  Não dava para pendurar no pescoço, mas também não tinha como quebrá-la ao meio. A alternativa foi guardar no bolso do short para, depois, decidir: afinal, esta foi a primeira prova que terminei sem completar. Ou, então, o primeiro treino de 11,75k depois de uma temporada de antibiótico, exames, repouso e um certo friozinho na barriga?

Nenhum comentário:

Postar um comentário