“Escrevo porque as pessoas que amei já morreram. Escrevo porque quando era menina havia em mim muita força para amar, e agora esta força está morrendo. Eu não quero morrer." (Meu Michel, Amós Oz) Também escrevo de tanto ouvir que: ou eu conto as histórias, ou elas tomam conta de mim.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
No solo
Geneticistas afirmam que não são poucos os casos de pais que criam filhos de outros homens acreditando que estão educando seus herdeiros genéticos. Ou seja, foram traídos pelas mulheres e não sabem. A partir desta constatação reuni alguns dados e tentei pensar em algumas situações, sempre lembrando que a vida real dá de lavada na ficção, como descrevem os cientistas. Ontem, postei a história do CANCELAMENTO. Hoje, vamos de
NO SOLO
"Senhores passageiros, aqui fala o chefe da cabine, estamos sem previsão de decolagem devido ao congestionamento na pista. Por favor, mantenham-se sentados com os cintos de segurança afivelados. Daqui a pouco, retornaremos com mais informações".
Que droga essa conversa de manter o celular desligado. Todo mundo sabe que não tem perigo. E, assim, amarrado, não posso mandar uma mensagem avisando que vou me atrasar. Não dá para ver emails, entrar na internet. E o comandante não vai falar nada? Sempre espero o comandante. É a parte mais nervosa de qualquer voo. Acho que, um dia, vou entrar no avião e ouvir: "o comandante Vinícius em nome desta tripulação..." Comandante Vinícius, meu filho. Meu terceiro filho. Meu filho com a Valéria. Meu filho que a Valéria nunca me apresentou.
Há algum tempo vi uma foto dele no Facebook da mãe: a mesma testa da minha família. Que coisa! Outro dia mesmo, no motel, contei que tinha mais um filho para a Amanda. Nem sei muito bem qual foi o motivo. Eu me sinto à vontade com ela. Ela diz que gosta das minhas histórias e, desse jeito, a gente se mantém ocupado entre uma transa e outra. A Ana e os meninos não sabem. Só os meus dois irmãos estão por dentro de tudo. Agora, a Amanda também sabe.
O meu filho mais novo devia estar com uns seis anos e eu me apaixonei pela Valéria. Ela era linda, enlouqueci e foi duro conquistá-la porque ela também era casada. Ficamos juntos por uns meses. Naquela época, não se usava camisinha. Amanda e eu temos dificuldade com a camisinha. Eu acho que não vou dar conta. Só que a gostosa da Amanda não sabe que há vinte e poucos anos isso não era problema para mim.
Gostosa, curiosa e metida, Amanda insistiu nos detalhes. Até hoje eu nunca perguntei se ela tem namorado, mas não escondo nada que ela me pergunte. Eu garanti que, simplesmente, acreditei, quando a Valéria disse que estava grávida e que o filho era meu. A Valéria comentou que estava sem transar com o marido. E, hoje, basta olhar para a testa do menino! Em seguida, continuei a história, o cara foi transferido e os dois se mudaram para o Chile antes do nascimento da criança. Nunca mais nos falamos. Quem me dava notícias deles era uma colega do trabalho, que se correspondia com ela.
Sei lá se tenho outros filhos. Depois da morte do meu pai descobri um irmão mais velho que todo mundo lá de casa, que foi devidamente confirmando num teste de DNA. Mas, com toda certeza, existe um comandante Vinícius voando por aí com a minha herança genética. Com a minha testa.
"Boa tarde, senhores passageiros, aqui fala o comandante Ícaro, dentro de alguns instantes vamos iniciar nossos procedimentos de decolagem."
Ainda não foi dessa vez. Quem sabe na volta para casa?
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