sábado, 28 de setembro de 2013

Glória

 Glória.  A Glória é gostosa. A minha mulher está me perguntando isso há um tempão e eu, tentando desconversar para não dar merda. Tudo bem. Ela não é uma Natalie Portman, nem uma Juliana Paes ou uma Panicat. Mas é bem gostosa. Por que será que as mulheres não descansam enquanto a gente não diz a verdade? Sim.  A Glória é gostosa e nem por isso eu tenho vontade de ir para cama com ela. Bem. Não sei. Ela é minha amiga de infância. Durante anos, fomos grudados. Eu dormia na casa dela depois de estudar e até nas férias. Tudo bem.

 Naquela época, eu não tinha nem pentelho e a Glória penava para manter a média em Desenho.  Éramos os melhores amigos que um garoto e uma garota podiam ser. Eu me lembro que ela era bem mais alta do que eu e apaixonada por um menino da nossa turma. Nem sei se os dois chegaram a ter alguma coisa.  Meus pais me tiraram da escola e a gente perdeu contato.

 Trocamos algumas carta e nada mais. Devo ter perdido o saco de procurar, não me lembro. Quero dizer, ela fazia mais força do que eu. Há uns quatro anos, a gente se viu no Facebook e foi bacana. De todos os colegas que descobri nessas redes sociais, ela foi única que ficou. A única que valeu a pena. A que me deixou feliz de verdade. Nosso primeiro encontro, depois de quase vinte anos, foi bem legal. Caramba, a Glória um mulherão. Tinha um trabalho interessante e um segundo casamento. Ela me recebeu com carinho, me ouviu com atenção. Acho que até chorou, mas preferi fingir que não reparei. Quando uma mulher chora na minha frente, eu, geralmente, dou um beijo na boca.  E, neste caso, era melhor não.

 Trocamos torpedos sobre a emoção do reencontro. Gostei à beça. Comentei pouco em casa para não dar confusão. Mesmo assim fiz questão de dizer à Glória que estava bem casado e tinha dois filhos lindos. O meu casamento com a Vitória é bacana. Custei a casar. Custei a ter pentelho. Custei a fazer quase tudo na vida. Tive sorte de a Vitória ficar comigo. A gente se dá bem. E os com os gêmeos aprendi a ser pai. Tento ser um pai tão legal com o meu. Eu tive sorte na vida. Eu tenho sorte na vida.

 A Glória, eu acho, não teve muita sorte. Não sei. Depois daquele primeiro café, a gente trocou emails e se viu mais umas duas ou três vezes no Centro. Eu marcava, ela desmarcava. Estava sempre viajando, em reunião, etc. Um bom tempo depois, ela foi lá em casa. Apresentei Glória à Vitória. Engraçado, né? Só neste dia, a gente se tocou da coincidência dos nomes. As duas se deram bem. Ficaram amigas no Facebook e até organizaram uma festa de aniversário para mim alguns meses depois.

 Vitória e eu não fomos muito com a cara do namorado da Glória. Às vezes, ela chamava de marido, outras de namorado. Ele aparecia pouco. Não incomodava. E não durou muito a história. Eles se separaram e a gente nem ficou sabendo muito bem o motivo. A Glória deu uma sumida novamente. Mas não perdemos o contato.

 No começo do ano passado, ficamos mais próximos. De vez em quando, a gente se vê um fim de semana inteiro. Ela passa o dia lá em casa. Ou gente vai à praia, almoça na Serra. Os meninos adoram a tia Glória. Ela vem sempre sozinha. Comigo, conversa de trabalho, amigos, viagens, dinheiro. Procuro não me meter quando ela e Vitória começam a falar de homem. A Vitória sempre diz que devo apresentar alguém para ela. Eu fujo do assunto, digo que só conheço cara casado, roubada ou viado. E pior, é verdade. E nunca vi essa coisa de cupido dar certo.

 Sempre que a gente se despede da Glória, a Vitória começa: “você acha que a Glória está sozinha? Deve estar faltando muito homem? Por  que, puxa, uma mulher que nem ela. Você não acha ela gostosa?” E, por aí, vai. Eu mudo de assunto porque, realmente, não tenho opinião formada. Não me interesso. Acho normal. Vai ver ela tem alguém, mas não apresenta para gente.

 Um dia, caí na besteira de dizer, só para encerrar o assunto, que a Glória podia não gostar de sexo. Isso nunca tinha passado pela minha cabeça. Cara, uns dias depois, a gente estava transando e a Vitória veio me perguntar se eu achava mesmo que a Glória não ligava para o assunto ou se estava faltando homem no mercado.

 Domingo, a gente marcou de tomar café-da-manhã com a Glória. Eu odeio tomar café fora mas as mulheres adoram. Ela disse que ia. Eu estava torcendo para furar. Para cair a maior chuva e a gente ficar em casa: os meninos brincando com a Vitória e eu dormindo até mais tarde. Fomos para a Lagoa e a Glória apareceu lá: de short, top, cabelo molhado. Tinha acabado de fazer uma aula de stand up paddle.

 Ela sempre gostou de esportes e modismos.  Acho que mais de modismos do que esportes. Eu me lembro que era adorava patinar numa pista que tinha ali mesmo na Lagoa. Eu nunca subi nuns patins. Não sei por que estava com tanta implicância da minha amiga?  Eu gostava dela e cheguei a pensar se  deveria dar um toque de que ela estava um pouco coroa para aquela  roupa.

  A Vitória ficou fazendo mil perguntas sobre a novidade do stand up paddle.  Como se ela fosse fazer isso. A Glória descrevia, com a empolgação de sempre,  que estava adorando. Que o professor era uma graça, que fez alguns amigos. Eu já havia reparado que toda história dela tinha um homem:  um professor, um médico, um amigo, um massagista, um terapeuta. Mas, claro, não comentei com a Vitória.

 Entre eles os colegas da turma havia um casal "bem bacana". O problema era que o cara estava dando em cima dela. “Como assim?” A Vitória não deixou passar. “Ah, mais um homem casado para minha coleção”.  “Jura? Tem muito cara casado na sua vida, Glória?”

 “Uma amiga me diz que isso acontece porque eles têm certeza que eu não vou para frente da casa deles armar um barraco, contar para a família. Eu acho que homem não pode ver uma mulher sozinha. Pensam logo que a gente está à disposição", teorizou. Felizmente, elas me ignoravam.

 Mas eu estava mesmo ali. Um dos meninos chamou para sair e ver não sei o quê lá fora e eu não dei a mínima. “Quer que eu faça as contas?”, perguntou a Glória em tom de desabafo. “Um ex-namorado de anos que me manda emails dizendo que transou com a mulher pensando em mim. Eu me dou ao trabalho de responder. Gasto meu inglês mais polite para sugerir que, na verdade, não sou eu. São apenas fantasias. E sujeito manda a tréplica: eu me sentiria homenageado se alguém tivesse esse tipo de desejo em relação a mim.Tem esse cara da aula, que já falei. Um colega de trabalho, que a mulher acabou de se curar de um câncer e a gente sempre sai para jantar em grupo. Um que envia fotos horríveis pelo celular. O cara mais novo que vai casar este ano? Acho que se pensar melhor, lembro de mais algum...”

 “Se eu sair por aí dizendo que esses relacionamentos estão com problema, vão me chamar de mal-amada. Agora, é a solteira aqui que tem segurar as pontas. Isso é um saco. Tudo bem, sei que cada casamento é um pacto. Que teorias garantem que homens separam com mais facilidade sexo de envolvimento. Mas eu também separo numa boa, hein”, ela ri. Mas a Glória não está de brincadeira. É mesmo um desabafo. A Vitória se cala e eu continuo fingindo que não estou aí.

 “O que mais me incomoda é quando eu conheço a mulher. Sei lá. Tenho a sensação de que o conflito ético passa a ser meu." "Você não transa com esses caras?", pergunto sem pensar e me arrependo na hora. Ela faz um movimento com a cabeça. Fico em dúvida se é sim, não, ou uma tentativa de mudar de assunto. O que eu tenho com isso? Caretice achar que a minha amiga de infância está pegando geral? Melhor assim, não? Não!

 Eu não dou em cima das amigas da minha mulher. Eu sou fiel. Viagem não conta. Festa da firma e carnaval avulso também não, eu acho. Além do mais, não sei se a Vitória é uma santa. Nunca houve um acordo formal, mas a gente brinca 'não me conte e use camisinha'. Prefiro não pensar. E não vou pensar na Glória. Não vou julgá-la, eu me esforçava enquanto mantinha a atenção nas duas.

  “Será que eles acham que eu estou precisando demais? Será que as mulheres desses caras não gostam de sexo? Será que está faltando mulher nos casamentos? ” Ela não parava. Ainda bem que o tom de voz era baixo e os meninos não estavam nem aí para a história. “Ah, Glória, de repente, eles estão só sendo gentis.  A gente conhece um bando de homem que seduz o tempo inteiro por esporte: dão em cima de todo mundo. E, na hora, arregam”, alivia a minha mulher para o meu total espanto.

  “Afinal de contas, eles não estão apaixonados por mim. É a onda de que comer todas as mulheres do mundo. Só querem mesmo dar umazinha. Mas há momentos em que eu também quero e aí?” “Ah, Glória não devem faltar caras para transar com você. Não vai me dizer que você está sozinha? Você não me parece a perigo”, provocou a Vitória.  A Gloria tomou um ar e emendou: “Não estou apaixonada e não estou saindo com ninguém. De vez em quando, me encontro com um cara. A gente se conheceu há uns meses e, não sei explicar, não resisti. Para mim, ele parece ter sido sempre sedutor e. casado. Pelo menos, não conheço a mulher dele, nem a família. Tenho certeza que não vou me envolver. É a primeira vez que isso acontece.”

  Silêncio. Tive a impressão que, assim como eu, a minha mulher estava procurando qualquer coisa para continuar a conversa. Para deixar a minha amiga à vontade. De repente, ficamos com sensação de que a Glória havia feito aquela volta toda para nos contar que estava tendo um caso. Será? Será que eu preciso dizer alguma coisa? Para confortá-la? Para manter o ritmo da conversa que seja? Fiquei pensando no próximo gesto e nada.

 Já disse: não sou moralista. Mas também não acho legal ter amante, ser amante, essas coisas. Sempre penso como um sujeito dá conta de ter duas mulheres ao mesmo tempo. Uma coisa é variar. Outra é você manter vidas paralelas. Quem tem um caso, se divide em duas rotinas. Meu pai teve uma amante. Lembro mais ou menos a história. Eu era pequeno.  Sempre ouvi falar desta história só que nunca dei atenção e, para ser sincero, nunca quis saber a respeito.

  O meu sogro também tem. Ou teve, pelo menos. Ele bebe um pouco mais, a gente fica sozinho, ele tenta puxar esse assunto. Aquela ladainha de respeitar a esposa e preservar a família, papo de necessidade de homem. Sarto fora.  Não preciso imaginar quais seriam as posições sexuais favoritas dele, nem muito menos aquilo que a minha sogra não admite fazer dentro das quatro linhas. Nossa, agora, eu estou viajando mesmo.

 Ainda queria prestar atenção na conversar da Glória. Como assim, ela tinha certeza que não ia se envolver? Papo de homem!!!Como fica aquela história de que elas querem carinho e a gente só pensa em transar? E os hormônios? O instinto reprodutivo? A necessidade atávica de preservar a espécie? De dormir agarradinho? Ou de receber um telefonema no dia seguinte? Ela não quer saber de nada disso?

 Assim como nós homens não somos todos iguais, as mulheres também não nasceram em série. A Vitória tem muitos amigos gays. A gente convive bastante com eles. E, cada vez menos, acredito em questões de gênero, como diziam as amigas feministas da minha mãe. Desisti de tentar entender as mulheres. Outra coisa que custou para acontecer na minha vida. Não sei por que a minha amiga Glória tem amante. Não sei se quero continuar prestando atenção nessa história.  Quero que ela seja feliz. Ela me parece bem. Ela me parece bem gostosa.

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