domingo, 3 de outubro de 2010

Eles

Estou solteira. Depois de mais de um casamento, namoros longos, curtos e casos. Já passei dos quarenta. Não me ufano de estar só, nem corto os pulsos por isso. Portanto, aceitei o desafio de apresentar meus humildes argumentos contra às mulheres que se vitimizam e àquelas que adoram ridicularizar os homens. Felizmente, nasci depois da guerra dos sexos, posso me dar ao luxo de usar sutiã como objeto de fetiche -- ou, simplesmente, de sustentação --, e dizer que prezo a companhia masculina dentro e fora das quatro linhas de um relacionamento afetivo.
Não pensem que passei batido pelas dores da solidão e da espera. Um homem muito mais talentoso com as palavras do que eu já dizia que “todo mundo é parecido quando sente dor.” Apenas me cansei de ver as mulheres -- eu inclusive -- expor as próprias misérias em blogs, instalações, livros e, até, muros. Gente, pare e pense: somos pessoas saudáveis e sofremos tanto por causa dos homens? No mínimo, isso acontece porque eles têm muita importância. E de onde vem essa importância? Talvez não esteja justamente no fato de já termos compartilhado bons momentos com eles?
Ainda quando era criança, meu pai mandava cartões-postais anônimos só porque eu reclamava de não receber cartas. O homem que me mostrou a delicadeza masculina, cometeu a grossura de ir embora cedo. E até o último dia em que estivemos juntos, me carregava do sofá para cama. Eu fingia que dormia e ele reclamava que estava ficando velho. Nessa curta convivência, colecionei bilhetinhos, bonecas típicas, curativos e tantos outros carinhos.
O exemplo dele deu frutos e meu irmão nunca descuidou da minha mão na hora de atravessar a rua. Anos mais tarde, o mesmo irmão fez a mudança da minha primeira separação sem dizer uma palavra. Um cunhado, que virou irmão, fez a mudança da minha última separação. Em frente à casa que eu deixava, enquanto acomodava minhas malas no carro dele, admitiu que aprendera muito do que era construção e carinho no contato com a minha família.
Eu aprendi tanto com os homens...andar de bicicleta, jogar buraco, chutar bola, comer comida japonesa, a entrar no mar sem medo, a ser tricolor de coração. Um colega de escola me ensinou o suficiente de química para que eu pudesse passar bem no vestibular. Outro até tentou me explicar física, números complexos, álgebra linear.
Graças ao namorado tirei a carteira de motorista, a segunda via da identidade, instalei uma bela estação de trabalho, aprendi a baixar música. Com o namorado aprendi que o amor enche de beleza os amantes e os olhos de quem ama. Com toda a doçura, ele me disse que, no começo, me achou um mulherão, interessante, charmosa, inteligente. Mas que, a cada dia, me achava mais bonita. E quando ouvi que meu pescoço era bonito, que ficava bem de cabelo curto. Bastou para acabar com quase duas décadas do trauma de cegonha.
Teve o dia em que perguntei ao namorado, assim meio de bobeira, esperando confeti, por que ele sempre me recebia tão bem na casa dele. Em tom solene, me respondeu que fazia todos aqueles salamaleques porque entendia o tanto que foi preciso quebrar de tabus para que uma mulher sozinha saísse de sua casa e batesse na porta de um homem solteiro.
Morri de rir quando, do nada, ou melhor, depois do nada, o namorado olhou pra mim, começou a me beijar até respirar aliviado: “nossa, ainda bem que você gosta de sexo.” Aliás, a quem mais devo atribuir essa preferência? A meu dom de escolher parceiros? Ou a sorte de ter esbarrado com pessoas bacanas?
Houve a fase em que recebia, de tempos em tempos, buquês de angélicas. Para quem não sabe, não são flores fáceis de achar. Não estão à venda na floricultura da esquina. Até hoje, não descobri quem era o fornecedor do namorado. E as obras completas de Machado de Assis? O relógio descolado? A viagem surpresa? O smartphone? A impressora? Os sapatos de salto alto que jamais pensei em usar? Tantos presentes originais, utilitários ou inúteis.
E o gesto de delicadeza de encher o copo, servir o prato, dar passagem ou lugar no corredor porque eu detesto janela. Delicadezas que recebemos de desconhecidos. E a alegria de atender aquele telefonema tão esperado? A gargalhada depois de ser surpreendida pelo pretendente dizendo que estava com saudade da minha conversa inteligente?
Sempre que precisei, eles estavam por perto. Quando fui atropelada na porta de escola, adivinhe quem me tirou do chão? O menino mais lindo da escola. Meus Deus, por onde será que ele anda? Como é bom ter mão de um homem na hora e no local apropriados. Até na internet fiz amigos de fé, que me acolhem sem jamais termos trocado um olhar.
Desde cedo ouvimos que somos mais espertas. Mais ligadas. Será que isso é uma questão gênero? Recebi elogios que levei tempo para entender. Só depois da minha primeira viagem à Espanha pude compreender o que um colega de trabalho pensava de mim quando repetia que Barcelona tinha tudo a ver comigo. Esse mesmo colega me trouxe de Nova York um livro com o qual eu sonhava e nem desconfiava que ele soubesse. Detalhe, eu morria de amores por ele e, como achava que não tinha a menor chance, costumava alugá-lo com minhas aventuras amorosas. Até que, de repente, ele parou de me dar atenção e carinho.
E que tal ser pedida em casamento por alguém que, de fato, desejava viver toda a vida ao meu lado? Que delícia poder dizer sim e entrar na igreja lotada sem conseguir parar de chorar durante toda a cerimônia. E a dor de descobrir, anos mais tarde, que Paulo Mendes Campos tinha razão, que o amor acaba e pronto.
E o conforto de ver a fila andando, a chegada de gente nova, a descoberta de sensações, potencialidades e afetos. O namorado que me deu às boas-vindas à vida dele, me franqueou os livros de cabeceira, que acabaram virando meus títulos favoritos. Só para curar a minha ressaca de mais de 18 horas de trabalho, o namorado abriu o champanhe mais caro da adega. E o cuidado de quem cronometrou a entrega da comida com a minha chegada para que eu não ficasse esperando.
Poucas coisas são tão atraentes quanto um homem empolgado. Pelo trabalho. Por uma mulher. Um tolo de bom coração gritou para mim: “vou mudar sua vida”. Por dentro, não sabia se morria de vergonha ou torcia para que fosse verdade. Agradeço a confiança e aviso que até já me esqueci dos segredos que ouvi daqueles que me escolheram como confidentes.
Adoro que o meu sobrinho, de 18 anos, conte comigo para os trabalhos da faculdade. Fico mais jovens quando troco cds com o outro de 16 anos e babo pelo Dudu, que tem só um ano e é meu afilhado. O Vicente, sobrinho escolhido, já me derrete quando me chama de Gegé. Não resisto quando me chamam de Gegé.
Eles fazem bem à minha saúde. Meu ginecologista é homem, meu terapeuta e meus autores e diretores de cinema favoritos também. Comecei a correr por um homem e, hoje, corro por muitos deles. Pode ser um filme, uma barra de chocolate, uma receita especial ou a última maravilha tecnológica. Homens gostam de te apresentar o mundo. E estou sempre disposta a conhecer.

5 comentários:

  1. adorei, angelica. e fico feliz que vc tenha encontrado tantos homens especiais na sua vida! que venham muitos mais. beijos,
    Angela

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  2. Muito obrigada pelo comentário. Não foram taaantos assim. Mas eu tive sorte e, sinceramente, não sei se quero que venham outros muitos. Só me irrito, como disse, com essas mulheres que ficam reclamando e correndo atrás de homem.

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  3. Amiga querida, que texto lindo! Precisa dizer que chorei? Parabéns! Vá em frente... Beijos, Lu

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  4. Angélica, você é muito, muito, muito especial. Você me emocionou, droga.
    bjos

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  5. ai, bruno, nem vem. basta olhar para você e me emocionar. você sabe disso,

    beijos

    e, lu, você me conhece muito bem para ainda chorar com as minhas histórias. :-))

    beijos e muito obrigada pela presença de todos. eu também preciso aparecer mais por aqui,

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